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Florestas sagradas como áreas protegidas

foto: Siomara Gonzales

Alunos de São João do Meriti, no dia da Mata Atlântica

Durante as comemorações do dia da Mata Atlântica, chamou minha atenção uma tímida celebração, organizada pela prefeitura de São João do Meriti, na Baixada Fluminense. Eles plantaram duas mudas de pau-brasil no Parque Natural Municipal Jardim Jurema.

O parque se espreme em 148 mil m². Mas exibe fragmentos de Mata Atlântica para uma população conhecida por habitar o “Formigueiro das Américas”, apelido que Meriti ganhou por ter uma das densidades demográficas mais altas do continente.

Fiquei matutando o que fez com que aquela área fosse poupada da ocupação?

Como bem indica o nome, a preservação só foi possível uma vez que fiéis frequentavam o lugar para adorar à Cabocla Jurema – entidade das religiões afro-brasileiras, com origem indígena.

Quando isso começou, ninguém se lembra. Mas em 2004 a prefeitura reconheceu sua importância: fundou uma unidade de conservação; mandou cercar; e começou um trabalho de revitalização, com plantio de mudas e educação ambiental.

Coincidência ou não, dentro da área, há uma microbacia de sete hectares, que abastece mananciais do horto municipal.

Exemplares de espadas-de-são-jorge, plantas no parque em reverência às entidades sagradas

Desconfio dessa coincidência porque já visitei florestas consideradas sagradas por culturas ancestrais, mas que o presente mostrou se tratarem também de áreas estratégicas para o equilíbrio ambiental.

Exemplo disso é um pequeno bosque em Spoleto, na Itália, que foi poupado pelas gerações porque era uma área reservada para cultos pagãos. Pedras encontradas no local, datadas do séc. III a.C., traziam inscrições em latim antigo informando que quem ameaçasse aquela reserva iria se ver com Jupiter.

Quando conheci, sai intrigado. Fui a uma unidade do Museu Arqueológico Nacional em Spoleto. Fiquei sabendo que espaços assim eram comuns na Roma Antiga. Aprendi que o escritor latino Servio, do século IV d.C., os chamava de il lucus, para diferenciá-los de florestas e de bosques (bosco e selva, em italino).

Lucus vem de lux (luz). Acredita-se que altares e pedras talhadas eram colocados em clareiras, por onde incidiria o foco da luz do sol ou mesmo da lua, criando cenários mágicos, especiais para cerimônias religiosas.

Em cada um desses lucus moraria alguma divindade. E que prodígios ali testemunhados, a essas entidades eram atribuídos.

Temente, o cidadão romano de então preferia se manter ao largo. Assim, esses bosques foram preservados da agricultura e das explorações madeireiras através dos séculos. É consenso que deveria haver alguma tutela privada dessas áreas.

O que é mais legal é que as pesquisas mostram que essas áreas, sempre vizinhas a povoações, exerciam funções ecológicas estratégicas, preservando sobretudo o equilíbrio hidrológico local.

Outros estudos mostram que havia também algumas dessas áreas destinadas a sacrifícios, aí sim, com leis romanas que as preservaram. No entanto, com o cristianismo, tais práticas foram abandonadas; as leis que as protegiam foram esquecidas, o que as deixou vulneráveis à conversão.

Na Wikipedia há um verbete em espanhol que trata do assunto: bosque sagrado, ali são apresentadas ocorrência do mesmo fato em várias culturas: celtas, hindus, japoneses.

Bosque sagrado em Bomarzo na Itália

SNUC – No Brasil, algumas áreas florestais carregam essa carga simbólica, principalmente – como no caso do Parque Jurema – devido às manifestações afro-brasileiras. Algumas dessas áreas foram protegidas pelo poder público.

No Parque Nacional da Amazônia tem a capelinha de São José da Mata, para onde é organizada uma peregrinação anual, que dura uma semana floresta adentro. No Parque Nacional das Sete Cidades, no Piauí, as formações rochosas ilustram diversas histórias transmitidas oralmente de geração em geração. Quando visitei, o guia me contou algumas delas com flagrante raízes medievalistas e distintas simbologias sebastianistas.

Capela de São José da Mata: 30 KM de peregrinação pelo Parna do Amazônia/PA

Mas o Sistema Nacional de Unidade de Conservação (SNUC) não prevê nenhum tipo de área protegida com fins religiosos. Por quê? Num país tão religioso. Seria porque o estado é laico? Sim, é laico mas teria a obrigação de garantir o direito a manifestações religiosas, não?

Talvez se fosse incluído algum dispositivo no Snuc, seria mais fácil a gestão das manifestações religiosas dentro das unidades de conservação.

A analista ambiental aposentada Denise Alves concorda comigo. Durante anosfoi lotada no Parque Nacional da Tijuca/RJ e sentia falta de algum instrumento legal para auxiliar nesse trabalho. Os mananciais do parque são muito usados para cultos afro-brasileiros. À noite, os praticantes veneram as entidades, mas de manhã ninguém se responsabiliza pelo que sobrou das oferenda.

Corajosa, resolveu enfrentar a questão e chamou os envolvidos para iniciar um diálogo.

Um seminário foi organizado, do qual participaram autoridades de instituições ligadas às culturas afro-brasileiras, pesquisadores, fiscais e usuários do Parna.

Caminhos foram apontados, mas por politicagem interna e incompetência dos gestores de plantão, o debate foi engavetado.

Se alguém souber de alguma área com essa simbologia religiosa, mas que ainda não foi reconhecida com tal, por favor, me avise, gostaria de pesquisar melhor.

Passeio pelo Parque Nacional da Amazônia

(matéria publicada no site O Eco Amazonia)

Quem chega ao Parque Nacional da Amazonia, pela entrada principal, se impressiona com o panorama que se abre no mirante logo em frente: uma imensidão de colinas cobertas por florestas. Em baixo, corre o rio Tapajós. Nessa época do ano, ele está cheio. Mesmo assim, pontas de pedra cortam seu leito, espumando o azul desse velho rio que vem do cerrado.

O Parque Nacional da Amazônia é habitado por cerca de 425 espécies de pássaros e 103 de mamíferos, de acordo com os dados mais recentes. Sua área estende-se por mais de um milhão de hectares entre o Pará e Amazonas, no cruzamento entre a Transamazônica e a BR-163.

Fui convidado a conhecer o parque pela Amiparna (Associação de Amigos do Parque Nacional da Amazônia), OnG fundada com recursos da Conservação Internacional (CI) e gerenciada por moradores Itaituba (PA).

A Amiparna organizou um passeio com alunos do ensino médio de Itaituba, cidade a 65 km do parque. A maioria nunca tinha estado ali e alguns nem se quer tinham feito uma trilha pela floresta – apesar de morarem no coração da Amazônia.

Claudio Rodrigues é aluno do curso técnico de agenciamento de viagens. Essa é a segunda vez que visita o parque. A primeira foi numa aula de campo do próprio curso, um ano antes.

Claudio diz que não conhece ninguém em Itaituba que frequente a floresta por lazer. A cultura local, segundo ele, está mais ligada nas praias de rio da região – com cerveja e um bom peixe assado na brasa.

Vago verde mundo – Penso comigo mesmo se houve alguma vez em que a população urbana da Amazônia teve o hábito de passear pela floresta. Procuro alguma pista nos romances escritos pelos autores da região, como o paraense Benedito Monteiros, por exemplo. Nada encontro.

No século XIX, o escritor Inglês de Souza até que registrou uma razoável memória de sua infância na zona rural de Óbidos (PA). Já as personagens de Milton Hatoum, no livro Dois Irmãos, parecem indiferentes à floresta que isola Manaus. Em Mad Maria, de Marcio Souza, a selva é vista como uma inimiga a ser combatida. Uma cultura que percebesse a Amazônia como lar, só as indígenas e ribeirinhas.

A presidente da Amiparna, Maria Lucia dos Santos, não se conforma com isso. Sabe que a floresta garante qualidade de vida. “mas se você não conhece, não pode preservar”, repete. Professora da rede de educação municipal, ela usa a floresta como tema transversal em suas aulas.

Regeneração – Antes do começo da caminhada, os guias da Amiparna sensibilizam os jovens para o que vão ver no caminho. ”Não precisamos encontrar com os animais para os conhecer melhor. Observando suas pegadas, restos de alimento e até as fezes, conseguimos informação suficiente para introduzi-los aos alunos”, explica Edvilson Conceição, instrutor da Amiparna.

Cerca de meia hora por uma trilha de floresta fechada, chegamos a um exemplar centenário de cedroarana, cujas raízes se espalham como tentáculos mata adentro. Trata-se de um remanescente da floresta primaria que ocupava aquela região antes de as máquinas cortarem a Transamazônica.

Com a construção da estrada, nos anos 70, a floresta foi bastante degradada. Porém, com a criação do parque, ela vem se regenerando. Pela altura da copa fechada das árvores e a largura de seus troncos (tudo com cerca de 40 anos) dá para perceber a força que a floresta tem para se revitalizar.

Segundo os biólogos que estudam a flora da região, esse crescimento rápido talvez seja favorecido pelo ciclo das águas do alto Tapajós. E também pelo fato de a característica fechada da floresta ajudar na formação de nuvens e precipitações. Trazendo mais água para a região.

De volta para o acampamento, decido pernoitar no parque. Armo minha rede no mirante enquanto a tarde cai, mudando a cor do leito do Tapajós. Um vento frio vindo pela calha do rio começa a gelar os ossos. Nem os mosquitos suportam.

Os estudantes se vão. Permanecem no parque apenas os vigias terceirizados, que, na falta de analistas ambientais, tentam controlar quem entra e sai da unidade – pelo menos pela porta da frente.

A chefe da unidade Maria Lucia Carvalho, do quadro de carreira do Instituto Chico Mendes de Conservaçao da Biodiversidade (ICMBio), reconhece as más condições do Parna. Seu sonho é transformá-lo no motor do turismo de selva na região.

Mas por enquanto, isso é só um sonho. Com as condições atuais, ela prefere nem cobrar ingresso dos 400 visitantes que o parque recebe por ano, quase todos pesquisadores.

Abnegada, ela aposta nos recursos de compensação ambiental para aprimorar sua gestão. Espera desde que assumiu a chefia cerca de R$ 1,5 milhão para investimentos na infraestrutrua turística.

O problema é construir essas melhorias e depois a hidrelétrica inundar tudo. Isso porque, uma das cinco barragens do Complexo do Tapajós, previsto no PAC, deverá ser construída naquelas corredeiras, inundando parte do Parque Nacional da Amazônia.

Segundo Maria Lucia, que teve acesso ao projeto das hidrelétricas, além das áreas naturais, cerca de 120 km da Transamazônica deverão ser inundados. “Do jeito que o projeto está, terá de ser refeita toda a extensão da estrada, entre os km 53 e 165” alerta.

Instante decisivo

Gilberto Nascimento Silva é vigilante do Parque Nacional da Amazônia. Servidor terceirizado desde 1993, passa 15 dias em casa e 15 dias dentro da floresta.

Piauiense, mudou-se para o Pará, no começo da década de 90, seguindo um tio aventureiro, que dizia que faria fortuna com mineração. Um dia, o tal tio chegou em casa com uma foto das árvores gigantes da  floresta. Aquilo mexeu com ele. Gilberto largou tudo e seguiu com o tio.

Estabeleceram-se em Itaituba, cidade do alto Tapajós, no Oeste do Pará. Gilberto trabalhou com transporte de ouro, como garçom, em hotéis da região. Mas nada o satisfez.

Um dia ficou sabendo da vaga no parque. Mesmo sem intimidade com armas de fogo, decidiu aceitar. No convívio com a floresta, Gilberto descobriu uma paixão: a fotografia.

Um belo dia, um fotografo inglês perguntou onde encontraria onças. Gilberto falou que costumava avistar uma na curva da estrada, ao raiar do dia.

Às cinco da manha do dia seguinte, lá foram os dois. Na hora exata, como se fosse combinado, a onça parda cruzou a estrada. O fotógrafo, sentado na garupa, nem desceu da moto. Apoiou a lente sobre os ombros de Gilberto, bateu uma única fotografia e pediu para ir embora. Nunca mais deu noticia.

Desde aquele dia Gilberto começou a fotografar também. “Fácil assim, achei que também podia fazer”, brinca. Hoje, tem um acervo de centenas de imagens de animais e plantas do Parque Nacional da Amazônia.

Técnica fotográfica, Gilberto domina poucas. O que sabe, aprendeu com os profissionais que visitam o parque.

Seu diferencial é conhecer os hábitos da floresta. Quando sai para fotografar, não espera contar com a sorte. Vai direto aonde sabe que vai encontrar o que busca. “Cada bicho tem seus horários, o que gosta de comer, a árvore que gosta de ficar”, ensina.

“A ararajuba, por exemplo, pode ser encontrada no final da tarde, nas árvores de murici ou aninhagá” explica. “Tem também uma árvore que ninguém sabe o nome, que dá um coquinho que elas adoram. Ali, sempre elas fazem o ninho”.

No Parque Nacional da Amazônia, ararajubas podem ser avistadas em bandos de até 50 indivíduos. Quando a luz da tarde incide sobre elas, é como se a árvore se cobrisse de flores amarelas.

Já a arara-vermelha se alimenta da bacaba. “Quando alguém se aproxima, ela solta uma alerta. Nessa hora, é melhor recuar e se aproximar de outra forma” garante.

Gilberto admite que ainda não bateu sua foto nota 10. Mas tempo para isso ele vai ter de sobra, uma vez que decidiu que permanecerá o resto da vida no parque. “Conviver com a mata é uma maravilha”. 

Para conseguir o clique mágico, ele parece estar no caminho certo. Como os grandes mestres da fotografia, Gilberto aprendeu o segredo:
 paciência, paciência e paciência.