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Tom Jobim: O Brasil é pura floresta

 

foto; João Bittar

Tom no jardim da casa dele no Rio

O Brasil é pura floresta.

Até o nome Brasil vem da floresta.

Outrora pensou-se em dar ao Brasil o nome de Ipê. Outra árvore ameaçada e linda! O ipê-roxo, o rosa e o amarelo! Amarelo Deus! Pau-d’arco, madeira de lei.

No dia da árvore fomos plantar uma no Parque Lage. Enquanto isso acontecia quimavam-se milhares de árvores no Brasil. Não só no dia da árvore, como todo o dia.

Mas que quer o Homem?

Queimar a floresta, matar os índios e os bichos, engaiolar os pássaros e escravizar a mulher.

Sempre falando em progresso e criando o deserto. Inventando a miséria na terra da opulência.

Brazil. Brasil, cadê o pau Brasil?

Zona da Mata! Cadê a mata?

Itabira do Mato Dentro, cadê o mato?

Boca do Mato? Cadê o mato?

Lá embaixo, vistas do avião, as voçorocas descomunais, as entranhas da terra à mostra, a terra cremada, erodida, levada pelas águas, as serras despencando, as pedras morro abaixo, o fogo morro acima indo buscar a última árvore, nas grimpas.

As cinzas negras flutuando no ar, na maria-preta, o estouro dos taquaruçus, a língua de fogo atravessando o rio e o fogo pulando para a outra margem.

Ar poluído, águas poluídas, (o outro lado).

Destruição do paraíso. Fim da vida vegetal e animal.

No Estado do Rio de Janeiro, na última estiagem de mais de quarto meses, vi, com estes olhos, mais de cem fogos! À noite o céu ficava vermelho, de dia, cinza. O ar, irrespirável, as lágrimas rolando, o claro no inverno, insuportável.

Total devastação! Holocausto! Crime hediondo!

O sítio de minha mãe parece a cratera de um vulcão. Alguns cínicos falam em combustão espontânea. Ora, o Brasil é um país chuvoso e hereditário. O Estado do Rio de Janeiro é um dos lugares onde mais chove no mundo. Parece que todos têm uma caixa de fósforo no bolso. Qualquer estiagem eles tentam, a ver se pega.

Perguntei a um, por que botar fogo?

Resposta: é bom, pra plantar feijão.

Perguntei a outro: pra que o fogo?

O fogo faz fumaça que sobe e forma as nuvens que se condensam em chuva, que é boa pra plantação!

Aquel’outro me disse que o C02 é bom para as plantas.

Nesse duro escritório, tudo vem da floresta.

As longas tabuas do chão.

A madeira do piano, o pau-rosa do violão, a lenha no fogo, o lápis com o qual eu escrevo essas linhas, a mesa, a cadeira que estou sentado, a porta, a janela.

Meu Deus, é tudo floresta!

Móvel, esta escrivaninha de onde vos escrevo estas maltraçadas…

É claro que para Deus nada disso tem importância, a Terra não fará falta nenhuma. Deus tem milhares de planetas com onça, anta, macuco, mutum, com jacarandá, jequitibá, ipê, maçarandubas fabulosas, nunca vistas aqui na Terra, com animais que se unem e plantas que florescem na desconhecida primavera de um planeta selvagem.

A FLORESTA ENCANTADA

Mas de repente falta água no Rio de Janeiro e D. Pedro II pede ao Major Gomes Archer que plante a floresta, ou seja, que replante a Floresta da Tijuca. Naquele tempo a água principal vinha do rio Carioca, que nasce nas faldas do Corcovado, descendo pelo Cosmo Velho, Santa Thereza e atravessando a Lapa pelo aqueduto, sobre os arcos, que levava água para o centro do Rio. Mas essa água não era suficiente. Dom Pedro II sabia que com o desmatamento da Serra da Carioca e do Maciço da Tijuca, os mananciais secariam. A devastação era muito grande.

Restaram poucos trechos da mata virgem original. Eles não pensaram em fazer um parque com árvores ou um santuário com animais silvestres.

Assim foi que em 1862, pensando na água, o Major Archer, ajudado por seis escravos, iniciou o plantio da Floresta da Tijuca!

Incrível Floresta! Além de espécies nativas, vindas de Guaratiba e das Paineiras, plantou também espécies exóticas, como mangueiras do sudeste asiático, jaca índica, eucaliptos australianos, jambo da Ásia, bambus, pinheiros e outras.

E o incrível é que essa Rain Forest, essa Cloud Forest não pega fogo!

Quantas e quantas vezes, andando pela floresta, vi velas acesas no oco do pau. Quantas vezes vi balões enormes caírem acesos na floresta. Estes balões navegam à noite, de Norte para Sul, tangidos por um fraco terral. No mais das vezes eles caem no mar, cruzando o litoral leste-oeste do Rio de Janeiro.

Assim como o homem devasta, corta, queima tudo para fazer lenha, carvão, e planta café e cana, de repente, por falta d’água, ele planta uma floresta! E que floresta!

Não é uma floresta interesseira, de uma só espécie, sem pássaros, sem bichos, não é uma floresta de pinheiros nem de eucaliptos, é uma floresta com milhares de espécies vegetais e animais. Conspurcada, invadida em mil lugares, sim, como motocicletas correndo pelas picadas, roubada de suas orquídeas, de suas borboletas, de suas avencas, de seu silêncio, de suas madeiras de lei, de seus palmitos, com caçadores penetrando e matando tudo que encontram, em qualquer época do ano. Outros pegam borboletas, os armadilheiros pegam tatus, lagartos, micos, macacos, esquilos, preguiças e muitos pássaros. E cerca a água, o bicho com sede se aproxima e cai na esparrela, na cilada, no mundéu, na ratoeira, no laço, na urupuca, o Homem é mestre em transformar o paraíso em inferno, incríveis maquinações!

A inteligência nos traiu, justamente quando esperávamos aplicá-la sobre as espécies menos favorecidas. E agora vamos aos peixes… no anzol, na rede, no veneno, na dinamite, no covão…

Meu bravo Major Acher: você sabia de tudo, você plantou mais de sessenta mil árvores. Deus está orgulhoso de você e eu estou feliz por você e não só por causa da água! Mas também.

Num agosto-setembro, quando a jacutinga busca nas grimpas o coco da juçara e o fruto do murici, caminhávamos o Elzo, eu e o Therezinho pela trilha batida da porcada, ao longo do paredão. Na fresca da manhã, nossas sombras davam para a esquerda. Sabíamos que seguindo o rastro da porcada encontraríamos a passagem que levava ao outro lado da montanha. Mas isso já é outra história…

Ofereço estas mal traçadas rinhas, estas mal traçadas vinhas aos ex-caçadores que tiveram compaixão de suas vítimas.

E por amar tanto o mato e os bichos conheceram o mato e os bichos.

E porque existe uma maneira de amar sem matar.

E porque existem muitas maneiras de amar sem matar.

Como fazem os fotógrafos a quem dedico estas mal traçadas caprichadas linhas.

Estas cem traçadas minhas, já que dez traçadas tinhas.

Te espero no chão macio da Floresta.

Com amor.

Com carinho.

Com floresta e passarinho.

Antonio Carlos Jobim

(Apresentação do livro “Toda minha obra é inspirada na Mata Atlântica”, Ana & Tom Jobim)

 

foto: Cristiana Aspesi

Um aula de como não olhar a Amazônia

A visão colonizada por trás de uma inocente história infantil

uma-aventura-amazonica

Caiu na minha mão um livro do notório Educador Ambiental, Samuel Murgel Branco. Como era sobre a Amazônia, me acomodei para apreciá-lo. No entanto, a media que avançava na leitura, encontrava absurdo em cima de absurdo. Não consegui tirar os olhos até a última página.

O livro trata da geografia da Amazônia, narrada por meio de uma fictícia viagem ao rio Trombetas, no noroeste do Pará, feita por uma harmoniosa família paulistana.

Sei que o professor Samuel é uma referência em Educação Ambiental. Mas não pude deixar de escrever essa critica, já que a visão dele, apesar de o livro ter sido publicado em 1995, segue sendo atualíssima.

E também porque a obra está disponível numa biblioteca infantil que frequento, à mão de qualquer criança curiosa. Na verdade, o livro é uma aula de como não se deve olhar a Amazônia.

Desde a chegada dos personagens a Belém, tudo é apresentado como pitoresco, exótico. O que reforça a visão de terra distante primitiva passível de ser colonizada.

Cheio de compaixão, o autor culpa o consumo local como principal fator da degradação ambiental, que vai percebendo pelo caminho. Pesca excessiva, lixo, etc.

Tá aí o primeiro equívoco da obra. Lixo há, mas pior que o lixo é a visão segundo a qual a Amazônia é um almoxarifado de riquezas naturais livres para serem transferidas aos mercados externos.

Os setes estados da Região Norte precisam de uma política que garanta desenvolvimento local e não crescimento econômico alhures.

Belo Monte é um bom exemplo. A região afetada pelas obras está sendo sacrificada em nome de um suposto e irremediável bem maior da nação. Mas os impactos locais permanecerão. Foi assim com a hidrelétrica de Tucuruí; assim acontece na construção das rodovias da soja.

Seguindo a leitura, acompanhamos o desembarque da família na floresta – mais desinformação vai aparecendo. O narrador admira-se com a paisagem e elabora um suposto paradoxo da ecologia amazônica: apesar da biodiversidade, a floresta expande-se sobre um solo irremediavelmente pobre.

Esse erro persiste em materiais didáticos. É mais fácil acusar a floresta de paradoxal do que estudar suas complexidades.

A pergunta formulada pelo personagem denuncia o olhar forasteiro, sempre desinteressado da floresta, mas de olho na sucção das riquezas naturais.

Não deve ter sido esse o motivo da visita do professor Samuel ao Trombetas. Mas revelou sua visão colonizada que ainda hoje seus conterrâneos mantêm. Se sensíveis educadores ambientais como ele são reféns desse preconceito, imagina o resto.

Alguém interessado em manter a floresta em pé formularia a questão de forma diferente.

Tentaria compreender a relação sistêmica entre floresta, água e solo. E aí ficaria fácil de entender a fertilidade biológica que tanto impressionou o professor Samuel.

Mineração – Seguindo a leitura, a próxima parada da família bandeirante é no município de Oriximiná, às margens do rio Trombetas, para visitar uma mina de bauxita – matéria-prima do alumínio.

A partir daí, o livro se torna fundamentalmente obscuro. Revoltante até. Principalmente para quem conhece a Amazônia e aposta na Educação como estratégia de desenvolvimento.

Uma apresentação acrítica da mineração é imiscuída na narrativa, defendendo o tal do desenvolvimento e silenciando sobre os impactos ambientais e sociais que a atividade provoca.

Os processos industriais do alumínio são enaltecidos. O autor até comenta sobre a lama vermelha que o beneficiamento da bauxita provoca, mas resume o descarte com um simples “daí se joga fora”.

Joga fora para onde, Samuel?

Eu sei para onde! Para os igarapés que garantem a sobrevivência das populações tradicionais.

Participei de audiências públicas na região. Ouvi dos ribeirinhos, que na época da instalação dessas minas, as autoridades disseram que não haveria impacto, que a indústria era moderna e só traria benefício.

Mas o peixe sumiu e a água mudou de cor”, me contaram os ribeirinhos.

Aliás, a história da região é uma joia. O professor Samuel perdeu a oportunidade de escrever um livro lindíssimo.

Quilombolas – Pouco se fala, mas a Calha Norte do Pará tem uma história heroica de luta e resistência das populações negras.

Foram vários os quilombos da região formados por escravos levados ao coração da Amazônia para trabalhar na cultura cacaueira, durante o século XIX.

Negros que subiram o rio e eram abrigados pela floresta. Até hoje eles estão lá.

Ao contrário do que se entende sobre quilombos, eles nunca se isolaram – como mostra uma pesquisa das professoras Rosa Acevedo e Edna Castro, publicada no livro “Negros do Trombetas: Guardiões de Matas e Rios”

livro trombetas

Estudo detalha história dos quilombos do Trombetas

Os negros da região eram foragidos, sim, no entanto nunca cortaram os laços com as cidades. As professoras descrevem o comércio que mantinham com Belém e Santarém. Falam de como esses negros foram recrutados para a guerra do Paraguai. E o melhor: contam a descoberta de um livro, onde consta o registro de batismos clandestinos de quilombolas, realizados por padres abnegados da região.

População negra que a floresta abrigou, mas que agora volta a perder direitos com o interesse minerador.

Se o professor tivesse se debruçado sobre estudos a respeito do lugar que visitou iria se surpreendente, por um, aí sim, paradoxo regional.

Antes de iniciar a mineração, o governo federal criou unidades de conservação não para proteger o meio ambiente ou as populações tradicionais, mas para garantir a segurança da mineração. Para quem não sabe, trata-se de prática comum na Amazônia, como revela a “Mineração em Unidades de Conservação”, publicado pelo Instituto Socioambiental.

No Alto Trombetas, os quilombolas foram expulsos das áreas onde moravam para dar lugar ao mosaico de unidades de conservação, criado para proteger a atividade mineradora.

Quem se recusou foi tratado à bala pela polícia. Mais uma vez, os quilombolas tiveram que fugir floresta adentro. Novamente, ela lhes acolheu.

Apesar dos impactos, a região continua linda. Uma das mais incríveis de toda a Amazônia. O mosaico de unidades compreende a Flona Saracá-Taquera, a Rebio Trombetas, que, por sua vez, integram um outro mosaico estadual.

No final, o professor Samuel ainda empurra o velho argumento segundo o qual “o meio ambiente não deve impedir o desenvolvimento do país, nem o aproveitamento racional de seus recursos”. Para ele, é só uma questão de soluções inteligentes.

Outro falso paradoxo – muito útil para encobrir interesses não confessados.

Como Educador Ambiental, o professor Samuel (que hoje dá nome a um ativo instituto voltado para a agenda ambiental em São Paulo) deveria saber que inteligência passa longe de tentar viabilizar soluções mineradoras que levam recursos para fora da região. Como diz o jornalista Lúcio Flávio Pinto, “o que falta é consciência para adotar um modelo voltado para dentro”.

Inglês de Souza sem querer escreveu um belo relato sobre a escravidão na região

Para mais informações sobre a obra do prof Samuel: http://ismb.org.br/site/index.php/2012/07/22/uma-aventura-amazonica/

E aqui o livro “Negro do Trombeta” para baixar: Negros do Trombetas: guardiães de matas e rios.

E a publicação do ISA: Mineração em UCs na Amazônia Brasileira

Sorrentino: Educação Ambiental como forma de gestão

"Objetivo é  instituir uma política ambiental no MEC"

“Objetivo é instituir uma política ambiental no MEC”

O professor da ESALQ/USP Marcos Sorrentino é referência internacional na área de Educação Ambiental. Foi diretor do Departamento de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA) na gestão Marina Silva, quando ampliou a execução do departamento com atividades em todas as regiões. Várias foram as iniciativas de destaque, uma delas: a criação do o Sistema Nacional de Educação Ambiental (SisNEA).

De volta a Brasília, desde janeiro deste ano, Sorrentino agora é assessor do gabinete do ministro da Educação, Aloísio Mercadante. O atual ministro tem sinalizado que pretende garantir o selo ambiental na sua gestão. E Sorrentino comprou a briga: “Como apoio do ministro teremos meios de aprimorar as iniciativas de Educação Ambiental dentro e fora do MEC”, aposta. Sorrentino gentilmente concedeu essa entrevista no gabinete do Ministério da Educação em Brasília

 Quais são os principais projetos da sua gestão aqui no MEC?

Sorrentino – A responsabilidade que me foi atribuida pelo ministro Mercadante, para esses próximos dois anos do governo Dilma, é contribuir com a construção de uma política ambiental para o MEC. Política essa que incorpore a lógica ambiental na própria gestão interna da Casa. Além disso, vou me empenhar para fortalecer as ações da equipe da Educação Ambiental do MEC, que tem carência e recursos e de pessoal.

 

Sorrentino: "Financiamento da Educação Ambiental sempre foi um gargalo"

“Financiamento da Educação Ambiental sempre foi um gargalo”

Vai abrir frentes de trabalho no âmbito interno e externo então…

Sorrentino – Sim, uma política integral deve ser construída em quatro campos. O primeiro é interno, o MEC tem de dar o testemunho daquilo que está propondo para a sociedade. Precisamos instituir uma comissão interna de cultura e Educação Ambiental, que “ambientalize” cada um dos setores da casa e dialogue com todas as suas vinculadas: universidades, fundações, etc. São cerca de 600 mil servidores, ao todo. Dá para pensar num vigoroso programa de “ambientalização” dentro da área da Educação.

Já o terceiro campo de atuação será dentro do Programa Município Educador sustentável, iniciativa do Ministério do Meio Ambiente que durou entre 2003 e 2008, mas que agora o Ministério da Educação pode revigorar. Sabemos que uma escola só poderá ser efetivamente sustentável se o município assumir sua responsabilidade educadora. E, pro fim, a quarta frente é a das relações internacionais que busca apoio junto às outras nações e organismos internacionais para a expansão da Educação Ambiental não só no Brasil, mas em nível global.

E o projeto dos Coletivos Educadores, iniciativa promissora, mas que está meio esquecida. Eles podem ser revitalizados?

A segunda é nos empenharmos na execução do Programa da Escola Sustentável, que durante a Rio+20 o Ministro Mercadante destinou R$ 100 milhões. Ele precisa ser um programa orgânico e não mais uma iniciativa vaga-lume – que acende e apaga. Precisa ter organicidade, trabalhando junto com as Conferências Nacionais Infantojuvenil e do Meio Ambiente e todos os outros programas do MEC,com o Mais Educação, por exemplo.

“o importante é a orientação pública do fundo”

Como estão os preparativos para a 4ª Conferência Infantojuvenil pelo Meio Ambiente, que será realizada em novembro deste ano?

Sorrentino – Os Ministérios do Meio Ambiente e da Educação estão trabalhando em sintonia. O MMA já contratou três consultores mobilizados para os preparativos da Conferência. E o MEC, por sua vez, vem estimulando a criação de comissões estaduais.

Muitas já estão em atividade, trabalhando com escolas, fomentando em sala de aula o debate sobre os porquês da participação na Conferência. O problema é que o MEC ficou de publicar materiais didáticos sobre o encontro. Mas a publicação atrasou. De qualquer forma, assim que estiverem prontos, irão direto para a internet. Depois enviaremos os impressos às escolas.

Sorrentino – Na diretriz que formalizei como Ministro Mercadante, inclui a importância dos Coletivos Educadores. Vejo que os conselhos municipais de educação devem ser parceiros privilegiados para a construção desses coletivos. Seja com o próprio conselho cumprindo esse papel de coletivo educador; seja criando um braço exclusivo para esse objetivo, que, por sua vez, pode ter inclusive ação regionalizada.

Blog – Há hoje uma grande proliferação de cursos de Educação Ambiental em instituições de ensino superior. Qual sua avaliação da média desses cursos?

Sorrentino – De fato está havendo uma multiplicação desses cursos.  Até induzidos pela necessidade de as universidades públicas aumentarem o caixa. Mas boa parte deles é frágil na disseminação dos conhecimentos acumulados, seja em relação à atualidade da política ambiental, à pesquisa, etc.

Para enfrentamos essas questões o ideal seria desenvolvermos um programa de pós-graduação interinstitucional em rede, que envolvesse diversas universidades Brasil a fora e que formasse especialistas em gestão municipal, escolar ou para trabalhar em movimentos sociais. Pensando nisso já iniciamos uma conversa com a Capes para encampar esse projeto.

Blog – Como você acha que o MEC pode colaborar com a Rede Planetária e o Tratado de Educação Ambiental e Responsabilidade Global?

Sorrentino – O Tratado abre frentes promissoras de atuação. Durante a Rio+20, foi formada uma rede, que integra governos e sociedade civil. Essa rede já rendeu frutos: Junto com a Rede Planetária e a Secretaria de Políticas Indígenas do Estado do Amazonas estamos traduzindo o Tratado para as 11 línguas indígenas faladas ali.

Ganha os povos indígenas, ganha o Ministério porque, por meio dessa iniciativa, vai poder mapear a diversidade linguística do país. No Brasil, há 160 línguas, algumas delas com cinco seis falantes sem que ainda tenha sido gramaticalmente mapeada.

Blog – Abrindo um pouco mais os temas da entrevista. Queria uma opinião sua, como educador ambiental, sobre as sempre polêmicas linhas de financiamento para a Educação Ambiental.

Sorrentino – O fomento para a Educação Ambiental sempre foi um gargalo. O dinheiro do estado é burocrático de mais. É difícil fazer com que ele chegue à ponta. Por outro lado, o dinheiro de instituições privadas é investido a partir do interesses dessas instituições

A solução para isso seria uma articulação desses fundos para que eles possam cumprir o papel da política pública.

Blog – O caso do Fundo Brasileiro de Educação Ambiental – FunBEA, por exemplo, está aberto para receber dinheiro de empresas com passivos ambientais…

Sorrentino – O FunBEA tem uma gestão participativa. Ela é formada por representantes do setor empresarial, Sociedade Civil, Universidades, poder público e cidadania direta. Esse conjunto elege os gestores de fundo. Gosto desse modelo. Apostamos no sucesso gestão do FunBEA.

Outro bom exemplo a ser seguido é o do Funbio, que, nasceu privado, mas que posteriormente foi encampado pelo estado e conseguiu ser um fundo como orientação publica, mas sem a burocracia estatal.

 

Para saber mais, leia esse artigo de Sorrentino: Educação Ambiental como política pública

Biblioteca com APP

Já que não não respeitaram a área de preservação permanente, pelo menos uma bilblioteca ambiental ficou no lugar…

Biblioteca ambiental do município de Marzagão no Amapá

Carta aprovada pelos Povos de Terreiro sobre uso religioso de UCs

praticantes de religiões de matrizes africanas e povos indígenas discutem relação com a natureza e cobram respeito aos seus cultos Rio+20

ENCONTRO MUNDIAL DOS POVOS DE TERREIRO NA RIO+20 CARTA DO RIO

Os participantes do Encontro Mundial dos Povos de Terreiro na Rio+20, reunidos no dia 15 de junho, de 14:30 às 17h, na Oficina Práticas Religiosas em Áreas Protegidas, na Tenda 34 Tupac Amaru, na Cúpula dos Povos, discutiram os problemas, constrangimentos, demandas e propostas relacionadas às práticas das religiões da natureza nessas áreas, aprovando em plenária as considerações e os encaminhamentos apresentados a seguir.

Considerações

As práticas religiosas na natureza têm origem milenar, ocorrendo em inúmeras vertentes culturais, entre as quais estão as religiões dos povos de terreiro, como os de matriz africana e os povos originários.
Essas práticas estão voltadas para a reverência às forças da natureza, como as matas, rios, cachoeiras, praias e montanhas, além de estradas, encruzilhadas e trevos. Reconhecendo na natureza suas divindades, esses povos desenvolvem um profundo respeito e comprometimento em relação à sua proteção, concebida como espaço sagrado.

Os Povos Originários sofrem com o não reconhecimento da cultura indígena pela sociedade. Para os índios, a relação do homem com a natureza, como afirma Carlos Tukano, representante dos Povos Originários no SEAC, é de preservação, porque os índios sempre tiveram pelos Deuses da florestas, da água e do ar e de todos os elementos, respeito e reverência: “nossa história, entretanto, é como um copo quebrado que estamos tentando reconstruir para passar aos nossos filhos e netos. Entre as nossas iniciativas, temos a Aldeia Maracanã, o Centro Cultural Indígena no antigo Museu do Índio, onde praticamos a nossa religiosidade.”

Ocorrem, entretanto, com alta frequência, situações de constrangimento e violência quando os religiosos buscam parques e outras áreas de proteção da natureza, tais como intimidação por parte de diversos atores sociais, impedimento, perseguição, violência física e verbal, falta de segurança e expulsão de áreas naturais públicas.

Nos últimos anos, houve uma relativa perda de costume de ir aos espaços naturais públicos para cultuar os orixás, voduns, inquices e encantados, porque a ameaça de violência por parte do Estado e de antagonistas da prática religiosa afro-brasileira levou a isso. Alguns têm utilizado áreas privadas. Todavia, há consenso de que isso não é solução, pois a liberdade religiosa é um direito e não se deve pagar para poder exercê-la.

A esses problemas, identificados também nas oficinas do Núcleo Elos da Diversidade / Programa Ambiente em Ação da Superintendência de Educação Ambiental da Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro, em parceria com a UERJ e os povos de terreiro, entre 2011 e 2012, somam-se outras formas de violência no campo simbólico, como a desqualificação dessas religiões nos meios de comunicação social, proibição ou desqualificação dessas práticas culturais nas escolas e outros espaços, como consta no primeiro boletim de divulgação do Núcleo Elos.

Mais de quatrocentos religiosos que participaram dos encontros no Estado do Rio de Janeiro falaram da necessidade de atuar internamente às religiões, em busca de maior união entre os cultos, e reconhecimento de direitos e deveres do cidadão em relação à cultura e uso dos espaços públicos, bem como o enfrentamento do preconceito, intolerância e constrangimento que os religiosos sofrem em suas práticas.

Os participantes denunciaram a repressão geral do Estado e a repressão de evangélicos. Os debates sobre os constrangimentos vivenciados destacaram ainda dois aspectos: as reclamações e acusações de vizinhos aos terreiros e os preconceitos que sofrem crianças e jovens que se assumem praticantes da religião. Isso produz discriminação em escolas e de costumes, e problemas na socialização em fase decisiva para a constituição das identidades e grupos de pertencimento por parte de qualquer pessoa.

Foi destacado o impedimento que sofrem de acesso a áreas de cachoeiras, rios e praias que são apropriadas de modo particular, infringindo as leis. A ênfase dos debates girou em torno do direito público a espaços naturais, mas denunciaram que os espaços seguros e limpos estão em áreas privadas cujo acesso é pago. Isso é visto como uma alternativa que não resolve o problema, tanto por ferir direitos constitucionais quanto por privatizar uma prática que deve ser livre para os adeptos dos cultos afro, independente de condição econômica para realizá-la.

Outro ponto mencionado foi a constatação de que a população atribui tudo o que acontece de destruição e sujeira nesses espaços e na rua aos cultos afro, o que é uma clara manifestação de preconceito, apesar de reconhecerem que há parcela dos praticantes que estão mal orientados em relação a cuidados no uso de espaços públicos e à conservação da natureza.

Os religiosos discutiram as causas dessa situação, reconhecendo que o preconceito ocorre por desconhecimento dos fundamentos e valores mais profundos das religiões de matriz africana, e uma associação indevida com o “demônio” de outras religiões. Além disso, reconheceram que uma parcela de responsabilidade da imagem negativa em torno dessas práticas religiosas decorre de usos inadequados de materiais e desconhecimento de práticas de conservação do ambiente, além da negligência e omissão por parte do poder público, que não institui políticas públicas de coletas regulares de resíduo em áreas de uso tradicional.

Esses constrangimentos frequentes tornaram-se “naturais” com base em preconceitos e desigualdades sociais. Na visão dos participantes, a naturalização da desigualdade e do preconceito deve ser enfrentada e superada por meio da mobilização dos religiosos, adoção de práticas sustentáveis e criação de políticas públicas que assegurem a igualdade religiosa e o respeito à diversidade cultural.

Encaminhamentos

É fundamental que o Poder Público atenda as demandas da sociedade civil e dos povos de terreiro, garantindo o direito do cidadão à realização do culto ao sagrado na natureza, à proteção contra violência física e agressão verbal e ao acesso a espaços naturais limpos, sinalizados e acessíveis.

É fundamental que as políticas públicas de educação, cultura e comunicação social contemplem as culturas indígenas e as culturas de matriz africana e umbanda, garantindo o acesso desses grupos sociais aos meios de comunicação social, sua presença e seus conteúdos nas instituições de ensino, fóruns de decisão e controle social. Que haja ética no reconhecimento da religiosidade dessas culturas.

O enfrentamento deve ser feito pela reversão desse quadro, aumentando a mobilização e articulação do povo de terreiro por meio da comunicação, o intercâmbio e ações educativas. Outro aspecto é a necessidade de cada pessoa superar o medo e se assumir como religioso e defender seus direitos constitucionais, denunciando a intolerância e participando do processo político e educativo de superação das desigualdades sociais, preconceitos e intolerância.

Essa constatação só fortalece a necessidade de se constituir Espaços Sagrados de uso público e reforçar a luta para que as práticas religiosas sejam respeitadas também em outros espaços e vias públicas, como praias, ruas, praças e cemitérios.

É recomendada a criação de redes e formas de comunicação interna, a realização de oficinas ensinando usos de materiais ecologicamente adequados e a produção de materiais didáticos para o povo de terreiro.

É necessária a união das religiões para que consigam dialogar em condições de igualdade não só com o poder público, mas também com os outros setores da sociedade, para garantir que o projeto se consolide enquanto política pública e se fazer respeitar por aqueles que manifestam intolerância.

Há a necessidade de que cada praticante exerça os seus direitos sem medo, busque apoio legal na garantia de acesso a espaços naturais e da livre manifestação religiosa, e que as companhias de limpeza urbana apoiem o uso de encruzilhadas e de áreas naturais.

A mobilização dos povos de terreiro deve estar vinculada também à construção das políticas públicas para a cultura, educação e meio ambiente. É necessário ampliar o acesso a cartilhas e materiais educativos existentes (Decálogo das Oferendas, Elos de Axé, Oku Abó) e produzir novos materiais; estimular o acesso a mudas e o cultivo de ervas nas casas religiosas, objetivando a preservação do conhecimento da tradição sobre o uso das folhas nos rituais, como também o respeito às práticas da coleta em áreas protegidas; fomentar a função dos consagrados como sacerdotes/sacerdotisas das folhas nas comunidades de terreiros.

Há necessidade de se conhecer os direitos e deveres do cidadão em relação à educação, cultura, religião e meio ambiente, divulgando-os e fazendo encontros para explicá-los e capacitar os religiosos a utilizar os canais e instrumentos legais de participação do cidadão na defesa de seus direitos.

Muitos enfatizaram que a criação de um espaço religioso não é nenhum presente e sim um direito, alertando, porém, que isso não pode significar a restrição a poucas áreas. A luta é por tais espaços e também por acesso a outras áreas públicas (encruzilhadas, cemitérios etc.). Sugeriu-se ainda que esse trabalho no Rio de Janeiro fosse expandido nacionalmente, uma vez que o quadro de repressão e intolerância no estado é similar em todo o país e isso deve ser enfrentado e superado.

Rio de Janeiro, 15 de junho de 2012

Para mais informações, a Revista Forum cobriu o evento, aqui

Meu artigo a respeito do tema: Florestas Sagradas como áreas protegidas

Passeio pelo Parque Nacional da Amazônia

(matéria publicada no site O Eco Amazonia)

Quem chega ao Parque Nacional da Amazonia, pela entrada principal, se impressiona com o panorama que se abre no mirante logo em frente: uma imensidão de colinas cobertas por florestas. Em baixo, corre o rio Tapajós. Nessa época do ano, ele está cheio. Mesmo assim, pontas de pedra cortam seu leito, espumando o azul desse velho rio que vem do cerrado.

O Parque Nacional da Amazônia é habitado por cerca de 425 espécies de pássaros e 103 de mamíferos, de acordo com os dados mais recentes. Sua área estende-se por mais de um milhão de hectares entre o Pará e Amazonas, no cruzamento entre a Transamazônica e a BR-163.

Fui convidado a conhecer o parque pela Amiparna (Associação de Amigos do Parque Nacional da Amazônia), OnG fundada com recursos da Conservação Internacional (CI) e gerenciada por moradores Itaituba (PA).

A Amiparna organizou um passeio com alunos do ensino médio de Itaituba, cidade a 65 km do parque. A maioria nunca tinha estado ali e alguns nem se quer tinham feito uma trilha pela floresta – apesar de morarem no coração da Amazônia.

Claudio Rodrigues é aluno do curso técnico de agenciamento de viagens. Essa é a segunda vez que visita o parque. A primeira foi numa aula de campo do próprio curso, um ano antes.

Claudio diz que não conhece ninguém em Itaituba que frequente a floresta por lazer. A cultura local, segundo ele, está mais ligada nas praias de rio da região – com cerveja e um bom peixe assado na brasa.

Vago verde mundo – Penso comigo mesmo se houve alguma vez em que a população urbana da Amazônia teve o hábito de passear pela floresta. Procuro alguma pista nos romances escritos pelos autores da região, como o paraense Benedito Monteiros, por exemplo. Nada encontro.

No século XIX, o escritor Inglês de Souza até que registrou uma razoável memória de sua infância na zona rural de Óbidos (PA). Já as personagens de Milton Hatoum, no livro Dois Irmãos, parecem indiferentes à floresta que isola Manaus. Em Mad Maria, de Marcio Souza, a selva é vista como uma inimiga a ser combatida. Uma cultura que percebesse a Amazônia como lar, só as indígenas e ribeirinhas.

A presidente da Amiparna, Maria Lucia dos Santos, não se conforma com isso. Sabe que a floresta garante qualidade de vida. “mas se você não conhece, não pode preservar”, repete. Professora da rede de educação municipal, ela usa a floresta como tema transversal em suas aulas.

Regeneração – Antes do começo da caminhada, os guias da Amiparna sensibilizam os jovens para o que vão ver no caminho. ”Não precisamos encontrar com os animais para os conhecer melhor. Observando suas pegadas, restos de alimento e até as fezes, conseguimos informação suficiente para introduzi-los aos alunos”, explica Edvilson Conceição, instrutor da Amiparna.

Cerca de meia hora por uma trilha de floresta fechada, chegamos a um exemplar centenário de cedroarana, cujas raízes se espalham como tentáculos mata adentro. Trata-se de um remanescente da floresta primaria que ocupava aquela região antes de as máquinas cortarem a Transamazônica.

Com a construção da estrada, nos anos 70, a floresta foi bastante degradada. Porém, com a criação do parque, ela vem se regenerando. Pela altura da copa fechada das árvores e a largura de seus troncos (tudo com cerca de 40 anos) dá para perceber a força que a floresta tem para se revitalizar.

Segundo os biólogos que estudam a flora da região, esse crescimento rápido talvez seja favorecido pelo ciclo das águas do alto Tapajós. E também pelo fato de a característica fechada da floresta ajudar na formação de nuvens e precipitações. Trazendo mais água para a região.

De volta para o acampamento, decido pernoitar no parque. Armo minha rede no mirante enquanto a tarde cai, mudando a cor do leito do Tapajós. Um vento frio vindo pela calha do rio começa a gelar os ossos. Nem os mosquitos suportam.

Os estudantes se vão. Permanecem no parque apenas os vigias terceirizados, que, na falta de analistas ambientais, tentam controlar quem entra e sai da unidade – pelo menos pela porta da frente.

A chefe da unidade Maria Lucia Carvalho, do quadro de carreira do Instituto Chico Mendes de Conservaçao da Biodiversidade (ICMBio), reconhece as más condições do Parna. Seu sonho é transformá-lo no motor do turismo de selva na região.

Mas por enquanto, isso é só um sonho. Com as condições atuais, ela prefere nem cobrar ingresso dos 400 visitantes que o parque recebe por ano, quase todos pesquisadores.

Abnegada, ela aposta nos recursos de compensação ambiental para aprimorar sua gestão. Espera desde que assumiu a chefia cerca de R$ 1,5 milhão para investimentos na infraestrutrua turística.

O problema é construir essas melhorias e depois a hidrelétrica inundar tudo. Isso porque, uma das cinco barragens do Complexo do Tapajós, previsto no PAC, deverá ser construída naquelas corredeiras, inundando parte do Parque Nacional da Amazônia.

Segundo Maria Lucia, que teve acesso ao projeto das hidrelétricas, além das áreas naturais, cerca de 120 km da Transamazônica deverão ser inundados. “Do jeito que o projeto está, terá de ser refeita toda a extensão da estrada, entre os km 53 e 165” alerta.

Instante decisivo

Gilberto Nascimento Silva é vigilante do Parque Nacional da Amazônia. Servidor terceirizado desde 1993, passa 15 dias em casa e 15 dias dentro da floresta.

Piauiense, mudou-se para o Pará, no começo da década de 90, seguindo um tio aventureiro, que dizia que faria fortuna com mineração. Um dia, o tal tio chegou em casa com uma foto das árvores gigantes da  floresta. Aquilo mexeu com ele. Gilberto largou tudo e seguiu com o tio.

Estabeleceram-se em Itaituba, cidade do alto Tapajós, no Oeste do Pará. Gilberto trabalhou com transporte de ouro, como garçom, em hotéis da região. Mas nada o satisfez.

Um dia ficou sabendo da vaga no parque. Mesmo sem intimidade com armas de fogo, decidiu aceitar. No convívio com a floresta, Gilberto descobriu uma paixão: a fotografia.

Um belo dia, um fotografo inglês perguntou onde encontraria onças. Gilberto falou que costumava avistar uma na curva da estrada, ao raiar do dia.

Às cinco da manha do dia seguinte, lá foram os dois. Na hora exata, como se fosse combinado, a onça parda cruzou a estrada. O fotógrafo, sentado na garupa, nem desceu da moto. Apoiou a lente sobre os ombros de Gilberto, bateu uma única fotografia e pediu para ir embora. Nunca mais deu noticia.

Desde aquele dia Gilberto começou a fotografar também. “Fácil assim, achei que também podia fazer”, brinca. Hoje, tem um acervo de centenas de imagens de animais e plantas do Parque Nacional da Amazônia.

Técnica fotográfica, Gilberto domina poucas. O que sabe, aprendeu com os profissionais que visitam o parque.

Seu diferencial é conhecer os hábitos da floresta. Quando sai para fotografar, não espera contar com a sorte. Vai direto aonde sabe que vai encontrar o que busca. “Cada bicho tem seus horários, o que gosta de comer, a árvore que gosta de ficar”, ensina.

“A ararajuba, por exemplo, pode ser encontrada no final da tarde, nas árvores de murici ou aninhagá” explica. “Tem também uma árvore que ninguém sabe o nome, que dá um coquinho que elas adoram. Ali, sempre elas fazem o ninho”.

No Parque Nacional da Amazônia, ararajubas podem ser avistadas em bandos de até 50 indivíduos. Quando a luz da tarde incide sobre elas, é como se a árvore se cobrisse de flores amarelas.

Já a arara-vermelha se alimenta da bacaba. “Quando alguém se aproxima, ela solta uma alerta. Nessa hora, é melhor recuar e se aproximar de outra forma” garante.

Gilberto admite que ainda não bateu sua foto nota 10. Mas tempo para isso ele vai ter de sobra, uma vez que decidiu que permanecerá o resto da vida no parque. “Conviver com a mata é uma maravilha”. 

Para conseguir o clique mágico, ele parece estar no caminho certo. Como os grandes mestres da fotografia, Gilberto aprendeu o segredo:
 paciência, paciência e paciência.