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Especialistas apontam os nós do manejo florestal sustentável

Audiência pública sobre concessão florestal em Rondônia – manejo saiu da agenda?

Conversei com alguns especialistas do mercado madeireiro de florestas nativas. Eles me traçaram um panorama da atualidade do manejo florestal sustentável no Brasil. Parece que o setor vive uma crise sem precedentes e que caminha para a inviabilidade.

O excesso de burocracia é apontado como um entrave crítico. O que não é novidade. Mas as queixas não param por aí. São inúmeras. Mas a principal questão não é técnica, mas política. Eles acreditam que há má vontade da atual gestão federal.

Cerimônia no Palácio do Planalto – burocracia ainda é entrave para o desenvolvimento do manejo florestal sustentávell

Questionei de onde viria tal má vontade e se não tinham achado positivas as medidas adotadas nos últimos anos pelo governo federal. Eles admitiram que sim.

Exemplo disso seria as ações de comando e controle contra o desmatamento na Amazônia e contra a corrupção em órgãos ambientais. Destacaram também a aprovação da Lei de Gestão de Florestas Públicas (11.284/06) e a criação do Documento de Origem Florestal (DOF). Outro avanço teria sido a adoção da gestão florestal compartilhada, que descentralizou o licenciamento da esfera federal para os estados.

Marco de proteção deixado pelo antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) dentro da Flona do Jamari em Rondônia

Porém esses especialistas desconfiam que tais medidas estejam agora fazendo água, uma vez que caíram no esquecimento nos atuais órgãos gestores. Eles explicam que apesar de as medidas de comando e controle terem tido resultados, elas teriam de ter sido sucedidas por ações governamentais que atendessem às demandas crescentes de produtos florestais. “Sem essas iniciativas por parte do governo, o mercado ficou sem opção sustentável que pudesse ser adotada”, avaliou um deles.

Tampouco as concessões florestais conseguiram atrair grupos empresariais de peso que garantissem investimentos e produção em escala no setor madeireiro sustentável. O Serviço Florestal Brasileiro parece estar adormecido.

Alertam também que sistema DOF apresenta vários furos que não estão sendo devidamente corrigidos. Segundo apurei, há uma investigação do Ministério Público que aponta diversas falhas graves no sistema, gerando uma “falsa legalidade”, já que esquentam falsos planos de manejos e geram créditos fictícios.

Outra queixa e contra lotes de madeira legal disponíveis no mercado, mas oriundos de desmatamento – geralmente provocado pelas politicas publicas adotadas na Amazônia – assentamentos do Incra ou grande obras, como estradas e hidrelétricas. Esses empreendimentos oferecem madeira como resíduo da atividade principal – sem custo de operação, nem sustentabilidade.

Economia florestal sustentavel – chave para a conservacao da floresta?

Sustentabilidade é papo de Rio+20O pior, segundo conta um empresário, é que o mercado lava as mãos para esses visíveis problemas da cadeia de custódia da madeira nativa.

“Tampouco as compras públicas são sustentáveis. Os gestores dos programas Minha Casa Minha Vida e do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não estão preocupados com a origem da madeira”, conta.

“Apesar de o governo falar em diminuição da degradação ambiental, o mercado de maquinário madeireiro cresceu 56% nos últimos anos. Como pode?”. Questiona.

De olhos bem fechados – Até porque é notório que a ilegalidade do setor madeireiro só acontece devido à inapetência dos órgão públicos. Especialistas sabem que apesar de o mercado de madeira nativa na Amazônia ser majoritariamente ilegal, a maioria das empresas que operam no setor apresenta as licenças ambientais em dia. Uma simples inspeção nessas empresas colocaria os pingos nos “is”.

Dados consolidados não existem para o setor. Não se sabe, ao certo, o preço mínimo dos produtos florestais sustentáveis, tampouco há números sobre as safras, ou preços praticados. Sem estrutura institucional não é possível criar um mercado florestal sustentável.

Conhecimento há, mas, se o manejo saiu da pauta do governo federal, fica difícil o mercado caminhar sozinho rumo à sustentabilidade.

Não deixei de questioná-los sobre a falta de organização por parte dos próprios empresários. E por que eles não vão a público construir um diálogo franco com o governo e a sociedade? “A iniciativa seria boa”, desconversou um deles.

Por fim, quis saber por que o manejo florestal teria saído da agenda se as soluções parecem ser tão óbvias.  Um dos meus interlocutores deu uma pista: “Está fora da pauta tudo e qualquer coisa que lembrar o nome Marina Silva.”

Marina Silva, em cerimônia no Palácio do Planalto, quando ainda era ministra do Meio Ambiente

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Rendeiras como índice de desenvolvimento sustentável

Maria Quitéria vende sua renda renascença na Rio+20, graças ao braço social do governo

Conheci a Quitéria Maria ontem na Praça Sociobiodiversidade da Rio+20. Ela está com um stand onde vende suas rendas renascença.

Quitéria é rendeira desde a infância, mas até hoje não conseguiu viver do ofício. Para complementar as finanças, é professora de adultos no Projeto Paulo Freire, que lhe rende mais R$ 150,00 trimestralmente.

Cooperativada, diz que só tem lucro quando vai para evento fora de Pesqueiro, cidade pernambucana onde mora. “Participo de uns quatro por ano”, conta.

Na avaliação dela, o que emperra o negócio ainda é a dependência do atravessador – que compra barato na origem e vende caro nos grandes centros.

(É incrível que ainda esteja vigente essa velha forma de exploração num país que alega ter tanto investimento social…)

Não dá pra vender pela internet? “Não, nunca dá certo”, sentencia.

Quitéria conseguiu vir ao Rio porque é beneficiada por um projeto do Ministério do Desenlvimento Agrário (aqui).

Enquanto conversava com Quitéria, andava pelo stand, admirando as peças. Como sempre faço, critiquei o preço. Escolada, Quitéria soltou o argumento de sempre: “se você soubesse o trabalho que dá…”

Sei sim. Sou fã dessas peças desde outros carnavais. Já visitei cooperativas em Pernambuco e compro sempre quando tenho dinheiro (quase nunca). São lindas, originais, obras de arte.

Para mim desenvolvimento sustentável só vai acontecer quando o trabalho de gente como Quitéria deixar de ser atendido pelo braço social do governo e virar investimento.

Resposta para o artigo “Campo Fértil para o jornalismo verde”

Caro Washington,

Li seu artigo no Observatório da Imprensa: “Campo Fértil para o jornalismo verde“.

Só acho o seguinte: o jornalismo alinhado com a economia verde já existe. Está difundido na comunicação corporativa, com tentáculos em várias áreas: estratégias de marketing bem financiadas, ações com fumaça de sociais, e até com novos cargos nas empresas. Por exemplo, o de “monitoramento de movimentos sociais”. A diferença é o que você chamou de “jornalismo verde” foi rebatizado com outro nome: greenwash.

Quanto ao jornalismo ambiental, concordo que não temos alcançado espaço suficiente nem na mídia, muito menos na sociedade. É difícil falar em sustentabilidade num país com tanto dinheiro direcionado para o consumo. Mas seguimos buscando ampliar a comunicação, e mais: a internet tem ajudando bastante, viu.

Por outro lado, acho que, nesses 20 anos, não perdemos o foco nas decisões da Rio 92. A Carta da Terra serve até hoje como princípio ético. (Se sua sugestão a favor de um jornalismo alinhado com a economia verde pegar, a Carta da Terra vai servir de baliza entre “jornalismo verde” e “jornalismo ambiental”.)

De qualquer maneira, nossa teimosia já rendeu algumas comemorações. No começo do ano fiquei muito feliz com a premiação na ONU de dois abnegados na luta em defesa da floresta: Paulo Adário e Felipe Milanez. Na ocasião eles não comeram mosca: aproveitaram o espaço para dar voz à luta: floresta faz a diferença.

E acho que podemos dizer até que contribuímos, sim, para embaralhar o “acordão” entre governo e ruralistas para revogar o Código Florestal.

Como escreveu Drummond, poeta que você bem conhece:

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Um flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

… furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Luiz da Motta

Mapa dos polos de madeira serradas e Flonas passíveis de concessão

No mapa abaixo da pra ver onde são as florestas que poderão ser beneficiadas com concessões florestais.

Dá pra que as unidades em processos de concessão florestal estão distantes dos polos de produção de madeira serrada.

Principais municípios produtores de madeira serrada na Amazônia Legal e as FLONAs passíveis de concessão em 2012.