Rômulo Mello: atenção às unidades de conservação é a chave da próxima fase do PPCDAm

ac_1899-2

No foco, Rômulo Mello, então presidente do ICMbio

No dia 05 de outubro, na abertura do Seminário Técnico-Científico de análise dos dados do Prodes, realizado em Brasília, o então presidente do ICMBio, Rômulo Mello, falecido no último dia 10, deixou essas palavras para que servissem de guia para o seminário.

O interessante da mensagem deixada por Rômulo é que, segundo ele, para que o PPCDAm continue a dar resultados, o plano precisa voltar ao que sempre foi. Tai algo surpreendente na história das políticas públicas nacionais, sobre tudo na área ambiental.

Abaixo a integra da sua fala de Rômulo. Sintética, mas que guarda as chaves do sucesso da próxima fase do PPCDam.

Parabeniza o MMA pela abertura de um debate técnico sobre o desmatamento, que possibilita uma análise circunstanciada do papel das diferentes instituições no controle do desmatamento. Uma das estratégias, iniciada em 2002-2003, foi o instrumento das unidades de conservação como forma de combate ao desmatamento.

Os resultados foram positivos, mesmo nas unidades com baixo grau de implementação e gestão atingimos efeito positivo em relação à diminuição das ações antrópicas.

Se olharmos o arco do desmatamento, algumas unidades foram criadas para evitar que o avanço agropecuário comprometesse mais ainda a floresta. Os resultados são reconhecidos nacional e internacionalmente. Exemplo disso, é a implantação de unidades de conservação ao longo das rodovias BR-163 e da futura BR-319, áreas que se tornaram críticas por causa das obras de infraestrutura. Não posso deixar de mencionar que, desde a criação do ICMBio, em 2007, a gestão foi otimizada.

Os dados mostram, com exceção da Reserva Biológica de Gurupi, no Maranhão, que apenas 3,6% do desmatamento acontece em unidades de conservação. Desses, 70% acontece em 4 unidades: APA Tapajós, REBio do Cachimbo e Flona Jamanxin, que já foram criadas como barreira do desmatamento e para regularização fundiária das terras que estavam em mãos de grileiros.

Essas ações foram resultado do PPCDAm. Por isso, é preciso que o plano volte a dar atenção à essas unidades. Principalmente, por meio de parcerias em todos os âmbitos – públicos e privados.

Não dá para se entender o desmatamento de modo geral na Amazônia, é preciso um olhar especifico para cada uma dessas áreas críticas. Nos últimos anos, tivemos uma fragilização do combate ao desmatamento e dos incêndios florestais no ICMBio, mas agora novos recursos serão envidados na proteção.

É necessário ter aporte de equipe e recursos permanentes. Essas quatro unidades têm caraterísticas especificas e receberão atenção especial do ICMBio.

Concluindo, gostaria de fazer uma referência ao governo atual sobre como enfrentar o desmatamento. Na época que o PPCDAm foi lançado, o governo reuniu 14 ministérios, coordenados pela Casa Civil.

Muito obrigado

Tom Jobim: O Brasil é pura floresta

 

foto; João Bittar

Tom no jardim da casa dele no Rio

O Brasil é pura floresta.

Até o nome Brasil vem da floresta.

Outrora pensou-se em dar ao Brasil o nome de Ipê. Outra árvore ameaçada e linda! O ipê-roxo, o rosa e o amarelo! Amarelo Deus! Pau-d’arco, madeira de lei.

No dia da árvore fomos plantar uma no Parque Lage. Enquanto isso acontecia quimavam-se milhares de árvores no Brasil. Não só no dia da árvore, como todo o dia.

Mas que quer o Homem?

Queimar a floresta, matar os índios e os bichos, engaiolar os pássaros e escravizar a mulher.

Sempre falando em progresso e criando o deserto. Inventando a miséria na terra da opulência.

Brazil. Brasil, cadê o pau Brasil?

Zona da Mata! Cadê a mata?

Itabira do Mato Dentro, cadê o mato?

Boca do Mato? Cadê o mato?

Lá embaixo, vistas do avião, as voçorocas descomunais, as entranhas da terra à mostra, a terra cremada, erodida, levada pelas águas, as serras despencando, as pedras morro abaixo, o fogo morro acima indo buscar a última árvore, nas grimpas.

As cinzas negras flutuando no ar, na maria-preta, o estouro dos taquaruçus, a língua de fogo atravessando o rio e o fogo pulando para a outra margem.

Ar poluído, águas poluídas, (o outro lado).

Destruição do paraíso. Fim da vida vegetal e animal.

No Estado do Rio de Janeiro, na última estiagem de mais de quarto meses, vi, com estes olhos, mais de cem fogos! À noite o céu ficava vermelho, de dia, cinza. O ar, irrespirável, as lágrimas rolando, o claro no inverno, insuportável.

Total devastação! Holocausto! Crime hediondo!

O sítio de minha mãe parece a cratera de um vulcão. Alguns cínicos falam em combustão espontânea. Ora, o Brasil é um país chuvoso e hereditário. O Estado do Rio de Janeiro é um dos lugares onde mais chove no mundo. Parece que todos têm uma caixa de fósforo no bolso. Qualquer estiagem eles tentam, a ver se pega.

Perguntei a um, por que botar fogo?

Resposta: é bom, pra plantar feijão.

Perguntei a outro: pra que o fogo?

O fogo faz fumaça que sobe e forma as nuvens que se condensam em chuva, que é boa pra plantação!

Aquel’outro me disse que o C02 é bom para as plantas.

Nesse duro escritório, tudo vem da floresta.

As longas tabuas do chão.

A madeira do piano, o pau-rosa do violão, a lenha no fogo, o lápis com o qual eu escrevo essas linhas, a mesa, a cadeira que estou sentado, a porta, a janela.

Meu Deus, é tudo floresta!

Móvel, esta escrivaninha de onde vos escrevo estas maltraçadas…

É claro que para Deus nada disso tem importância, a Terra não fará falta nenhuma. Deus tem milhares de planetas com onça, anta, macuco, mutum, com jacarandá, jequitibá, ipê, maçarandubas fabulosas, nunca vistas aqui na Terra, com animais que se unem e plantas que florescem na desconhecida primavera de um planeta selvagem.

A FLORESTA ENCANTADA

Mas de repente falta água no Rio de Janeiro e D. Pedro II pede ao Major Gomes Archer que plante a floresta, ou seja, que replante a Floresta da Tijuca. Naquele tempo a água principal vinha do rio Carioca, que nasce nas faldas do Corcovado, descendo pelo Cosmo Velho, Santa Thereza e atravessando a Lapa pelo aqueduto, sobre os arcos, que levava água para o centro do Rio. Mas essa água não era suficiente. Dom Pedro II sabia que com o desmatamento da Serra da Carioca e do Maciço da Tijuca, os mananciais secariam. A devastação era muito grande.

Restaram poucos trechos da mata virgem original. Eles não pensaram em fazer um parque com árvores ou um santuário com animais silvestres.

Assim foi que em 1862, pensando na água, o Major Archer, ajudado por seis escravos, iniciou o plantio da Floresta da Tijuca!

Incrível Floresta! Além de espécies nativas, vindas de Guaratiba e das Paineiras, plantou também espécies exóticas, como mangueiras do sudeste asiático, jaca índica, eucaliptos australianos, jambo da Ásia, bambus, pinheiros e outras.

E o incrível é que essa Rain Forest, essa Cloud Forest não pega fogo!

Quantas e quantas vezes, andando pela floresta, vi velas acesas no oco do pau. Quantas vezes vi balões enormes caírem acesos na floresta. Estes balões navegam à noite, de Norte para Sul, tangidos por um fraco terral. No mais das vezes eles caem no mar, cruzando o litoral leste-oeste do Rio de Janeiro.

Assim como o homem devasta, corta, queima tudo para fazer lenha, carvão, e planta café e cana, de repente, por falta d’água, ele planta uma floresta! E que floresta!

Não é uma floresta interesseira, de uma só espécie, sem pássaros, sem bichos, não é uma floresta de pinheiros nem de eucaliptos, é uma floresta com milhares de espécies vegetais e animais. Conspurcada, invadida em mil lugares, sim, como motocicletas correndo pelas picadas, roubada de suas orquídeas, de suas borboletas, de suas avencas, de seu silêncio, de suas madeiras de lei, de seus palmitos, com caçadores penetrando e matando tudo que encontram, em qualquer época do ano. Outros pegam borboletas, os armadilheiros pegam tatus, lagartos, micos, macacos, esquilos, preguiças e muitos pássaros. E cerca a água, o bicho com sede se aproxima e cai na esparrela, na cilada, no mundéu, na ratoeira, no laço, na urupuca, o Homem é mestre em transformar o paraíso em inferno, incríveis maquinações!

A inteligência nos traiu, justamente quando esperávamos aplicá-la sobre as espécies menos favorecidas. E agora vamos aos peixes… no anzol, na rede, no veneno, na dinamite, no covão…

Meu bravo Major Acher: você sabia de tudo, você plantou mais de sessenta mil árvores. Deus está orgulhoso de você e eu estou feliz por você e não só por causa da água! Mas também.

Num agosto-setembro, quando a jacutinga busca nas grimpas o coco da juçara e o fruto do murici, caminhávamos o Elzo, eu e o Therezinho pela trilha batida da porcada, ao longo do paredão. Na fresca da manhã, nossas sombras davam para a esquerda. Sabíamos que seguindo o rastro da porcada encontraríamos a passagem que levava ao outro lado da montanha. Mas isso já é outra história…

Ofereço estas mal traçadas rinhas, estas mal traçadas vinhas aos ex-caçadores que tiveram compaixão de suas vítimas.

E por amar tanto o mato e os bichos conheceram o mato e os bichos.

E porque existe uma maneira de amar sem matar.

E porque existem muitas maneiras de amar sem matar.

Como fazem os fotógrafos a quem dedico estas mal traçadas caprichadas linhas.

Estas cem traçadas minhas, já que dez traçadas tinhas.

Te espero no chão macio da Floresta.

Com amor.

Com carinho.

Com floresta e passarinho.

Antonio Carlos Jobim

(Apresentação do livro “Toda minha obra é inspirada na Mata Atlântica”, Ana & Tom Jobim)

 

foto: Cristiana Aspesi

Revisão do Prodes 2015 mostra que desmate da Amazônia foi de 6.207 Km2

Correção mostra que desmatamento aumentou 24%, 6,45% maior do que o anunciado pelo governo inicialmente.

estados-prodes

fonte: Prodes/Inpe

O gráfico abaixo mostra que a queda acentuada a partir de 2004, quando iniciou-se o PPCDAm, teve um repique em 2008, que parece repetir em 2012 e 2015.

capturar

A instabilidade das últimas três medições leva a supor que há um descontrole do governo nas políticas de proteção da Amazônia.

Cerrado – Quem ama cuida

legenda-arvore-remnescente-do-cerrado-em-area-de-pasto-credito-luiz-da-motta

Espécie típica do Cerrado em área convertida em Pasto – Região do Entorno/DF

O Cerrado percentualmente é mais desmatado do que a Amazônia, mas mobilização comunitária é chave para a solução

O Cerrado é considerado a savana com maior número de espécies vegetais e animais do planeta. No entanto, a crescente ocupação humana vem diminuindo sua área ano após ano. Cerca de 46% da área original já foi destruída, segundo dados do Projeto TerraClass 2013, organizado pelo Ministério do Meio Ambiente.

Apesar de já ter perdido mais área proporcionalmente do que a Amazônia, o Cerrado sempre foi preterido em relação a ela. Enquanto a Amazônia goza de um sistema de monitoramento constante por satélite desde 1998, o desmatamento do Cerrado só é analisado ocasionalmente, como aconteceu no ano passado com a publicação do TerraClass – mesmo assim com dados de 2013.

Mas que foram suficientes para mostrar o tamanho do problema. Esse estudo serviu também para deixar claro as principais causas da destruição. Todas eles de difícil solução, mas possíveis de serem derrotadas. A primeira delas, não necessariamente a mais grave, é o uso de galhos e troncos das árvores do Cerrado para produção de carvão vegetal e lenha.

Para quem não sabe, o carvão vegetal é muito utilizado na indústria siderúrgica, principalmente para produzir imóveis e automóveis, objeto de desejo de todos e cada um de nós.

Já a produção de lenha serve para abastecer cadeias produtivas de pequeno e médio porte, como a indústria têxtil, por exemplo. E, por incrível que pareça, fogões e lareiras de milhares de residências de alta e baixa renda de todo o Brasil. (Classes sociais distintas na renda, mas que caminham de mãos dadas na destruição do nosso patrimônio florestal.)

A pecuária é outra atividade de altíssimo impacto no Cerrado. A opção nacional pela criação de gado extensiva, exige, ano após ano, mais e mais substituição de áreas nativas para pasto. Seja em terras públicas ou privadas.

Junta-se a isso a baixa fiscalização dos órgãos federais e estaduais, que carecem de pessoal e equipamento para agir contra os crimes ambientais.

DF – Na Capital do Brasil a situação não é nada boa. Dados desse mesmo estudo mostram que 48% da extensão territorial do DF é ocupada pela agropecuária e 10% por manchas urbanas, o que corresponde a 58% de área natural convertida.

De vegetação natural sobraram apenas 42% do total. O que eleva o DF à quinta unidade da federação com mais áreas desmatadas. Só perdemos para São Paulo, com 81%, Mato Grosso do Sul, com 67%, Goiás 57% e Paraná com 58%. Veja gráfico.

graf

Gráfico 1. Distribuição das frequências das classes de uso do solo e cobertura da terra no Cerrado,  por estado

Outro dado negativo é que, no DF apenas 4% de sua área foi destinada a unidades de conservação, sejam distritais ou federais. (O estudo não incluiu áreas das Unidades de Conservação classificadas como APAs, por serem muito flexíveis à conversão da vegetação nativa).

E pior, abrigamos no DF a terceira unidades de conservação federal com maior área de vegetação natural destruída. A Floresta Nacional de Brasília apresentava em 2013, 69,75% de desmatamento acumulado.

IBRAM – As unidades distritais também têm sofrido um bocado. Segundo dados do Instituto Brasília Ambiental (IBRAM) 19 tiveram a vegetação nativa de sua área integralmente convertida, seja por invasão privada, seja por consequência de descartes de entulho, ou para cultivos de exóticas.

Exemplo disso, é o parque Dom Bosco, perto da barragem do Lago Paranoá. Apesar de preservar cinco fisionomias diferentes do cerrado, entre matas de galaria, cerrado denso, entre outros, essa área vem sendo assediada desde a época da construção da capital.

Lá dentro, dá de tudo, solo exposto, devido à erosão, e até invasão para produção agrícola. Veja mapa:

graf-2

Não que ocupação seja errada, muito pelo contrário. Quanto maior o interesse das pessoas pelos parques, menos expostos eles ficarão aos crimes ambientais.

Exemplo disso, é o Parque Sucupira, que margeia o Eixo Monumental. Criado em 2005, ele conta com um grupo de pessoas engajadas na restauração da vegetação nativa e preservação dos remanescentes.

No Facebook, o parque tem uma comunidade que conta com 752 membros. Gente ativa que está sempre de olho no cuidado com o parque. E o melhor, organizam eventos que conjugam lazer e educação ambiental. A final de contas, como diz o ditado: “quem ama cuida”.

SEMA – O Decreto nº 37.115, de 16 de fevereiro de 2016, criou o programa Brasília nos Parques, cujo objetivo é justamente incentivar a população a se apropriar das áreas verdes das cidades e, de acordo com as peculiaridades de cada parque apresentar à população lista de ações a serem desenvolvidas durante o ano. As ações do programa Brasília nos Parques são coordenadas por um comitê gestor composto por 11 órgãos governamentais e colegiado é coordenado pela Secretaria do Meio Ambiente.

Outra importante iniciativa é a Virada do Cerrado, um programa colaborativo, envolvendo todo o Sistema Distrital do Meio Ambiente e que a partir de parcerias entre a população e o governo local desenvolve ações de educação socioambientais no desafio da cuidado e da preservação do cerrado.

Como não deixar 120 bilhões de árvores virar só papel

Segundo IPEA, Brasil tem capacidade de produzir 100 milhões de mudas

Segundo IPEA, Brasil tem capacidade de produzir 100 milhões de mudas/ano

Não vai ser fácil atender às metas que o Brasil vai levar à COP 21, em Paris.

Mas é bom saber que o governo entendeu que plantar floresta é a chave para enfrentar a crise do clima (quem sabe da economia também).

“O anúncio envolveu 32 milhões de hectares: 12 milhões ligados à recuperação de florestas, 15 milhões vinculados a pastagens e outros 5 milhões à integração lavoura-pecuária-floresta… http://goo.gl/7uCHTD

É muita coisa! Só na parte da recuperação florestal, a estimativa é de 120 bilhões de novas árvores.

Onde vamos arrumar tanta muda?

Em maio, o Ipea soltou uma pesquisa que mostrava o tamanho do desafio. Veja aqui

(A boa notícia é que os números estavam subestimados. Só o Acre produz 1 milhão de mudas por ano, que o IPEA não enxergou na pesquisa. Veja nota aqui)

Trabalhar com proteção ambiental é ser mãe ao contrário

  Conheci aqui na gruta de Maquiné, em Cordisburgo/MG, o guia Roberto Correia.

Roberto conta que trabalha ali há 30 anos. Aos oito, pisou na gruta pela primeira vez e se encantou. 

Desde então, seu cotidiano é guiar levas e levas de visitantes buraco adentro. Ensinar sobre a química que tornou tudo aquilo possível, lembrar da História e eternizar as lendas que humanizam o lugar.

“Percebam que, desde que entraram na gruta,  vocês não conseguiram mais pensar no mundo lá fora. Isso porque aqui em baixo a gruta sequestra nosso pensamento”, esclarece.

Ultimamente, Roberto anda preocupado. Depois de 25 anos, a fundação que administrava o acesso ao sítio ecológico perdeu a concessão. Seu futuro é incerto.

Lá fora, puxei um dedo de prosa com ele.  Mas seu depoimento era amargurado, o oposto do bom humor com que tinha guiado os visitantes.

“A verdade é que, nesse tempo todo, meu trabalho, foi acompanhar Maquiné se degradar. Antes, tinha água. Tinha vida. Hoje a gruta está morta.”

“Pois é, Irmão, trabalhar com proteção ambiental no Brasil é como ser mãe ao contrário: você cuida, cuida e cuida, mas seu objeto de proteção só definha, definha, definha.”

Evangélico, o guia garante que não guarda rancor. “Me sento aqui e me resguardo na oração”, desconversa.

Sorte dele, que nasceu com fé no coração. E azar de quem, como eu, nasceu com a fé cega na razão.

As múltiplas possibilidades do pouco

foto da capa da enciclica

Capa da 1º edição brasileira – 2015

Me chamou a atenção nessa encíclica do Papa Francisco a defesa do “pouco”. Não o pouco ligado à miséria, mas o pouco em oposição ao excesso, ao desperdício.

“Quanto menos, tanto melhor”, escreve.

Quando li, estranhei. Principalmente pelo fato de a igreja católica testemunhar tanta miséria mundo afora. Mas a argumentação que vai tecendo não deixava dúvida: a ética do pouco traria uma vida mais equilibrada.

A medida que avançava na leitura, a argumentação ia fazendo sentido. Pensando bem, nada mais contemporâneo do que pensar assim – sobretudo numa época de supérfluos, em que, todo ano, esgotam-se em setembro os recursos naturais que deveriam durar até dezembro.

E ele insiste: “É possível necessitar de pouco e viver muito, sobretudo, quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, na fruição dos próprios carismas, na música e na arte”.

Música! Isso mesmo. Suas palavras soavam como música para os ouvidos de um epicurista empedernido como eu.

Com esses argumentos, que conjugam prazeres com temperança, a encíclica poderia até ser confundida como algum fragmento redescoberto atribuído a Epicuro – filósofo que viveu na Grécia Antiga e que, a bem da verdade, não acreditava na existência dos deuses de então, nem muito menos em um único Deus, como creem os cristãos.

Parece até contradição. Mas na elegante argumentação de Francisco, a distância entre o cristianismo e o epicurismo se transforma em convergência. Em opostos que deixam de ser excludentes para se tornarem complementares.

Aliás, a opção pelo diálogo é o que costura toda a delicada narrativa dessa encíclica.

Exemplo disso é a insuspeitada união entre ciência e fé que, na visão de Francisco, é por onde passa o caminho da solução para a crise ecológica. “Nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser preteria, nem sequer a sabedoria religiosa com sua linguagem própria”, explica.

Tampouco Francisco vê contradição entre o pensamento ancestral e as inovações tecnológicas. Ele agradece aos progressos da medicina, da engenharia e da comunicação. ”É justo que nos alegremos com estes processos e nos entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes”.

Legal ele pensar assim.

Mas no Capítulo III – 1. A Tecnologia: Criatividade e Poder não deixa de criticar a lógica da tecnologia, que torna “anticultural a escolha de um estilo de vida, cujos objetivos possam ser, pelo menos em parte, independentes da técnica, dos seus custos e do seu poder globalizante e massificador”.

Esse argumento me lembrou um texto de Marcuse de 1968 (1) que li recentemente. Criticando a noção weberiana de racionalidade, Marcuse alertava para o risco de a técnica, desvinculada dos interesses sociais, passar a determinar padrões de controle. Francisco vai na mesma direção. Segundo ele, é difícil hoje em dia “utilizar os recursos (tecnológicos) sem ser dominado pela sua lógica”. Acho que eu e Papa lemos o mesmo texto…

E não é só Marcuse. Embora não mencione autores diretamente, o texto vai revelando página após página os diversos campos do conhecimento que Francisco integrou para garantir sustentação teórica à sua encíclica.

Thomas Malthus, por exemplo, aparece para logo em seguida ser sumariamente desacreditado. Hegel é base de várias linhas argumentativas. E a psicanálise serve como diagnóstico para a violência e o egoísmo contemporâneos, mas é descartada como solução libertária.

Argumentos marxistas são explorados com desenvoltura: Não à privatização dos recursos naturais; dívidas externas como forma de dominação colonial; etc.

Não foi à toa que Jeb Bush, do partido republicano, deu um faniquito assim que a encíclica saiu. Puro teatro. Se ele de fato leu as palavras do Papa, notou que em nenhum momento o capitalismo ou a iniciativa privada são descartados. Pelo contrário. Segundo a encíclica, todos são parte da solução.

Mas, apesar de conciliador, Francisco não deixa de chamar a atenção para excesso de todos os lados. Religiões que não se entendem. Políticos e economistas que se acusam mutuamente. E ecologistas que mais divergem do que convergem.

Ops! Aqui, vesti a carapuça. Quem me conhece sabe que, com os colegas preservacionistas, só me junto na cadeia.

Seguem alguns trechos da encíclica que têm a ver com esse blog:

Reserva Legal

Francisco pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para aí crescerem as ervas silvestres, a fim de que, quem as admirasse, pudesse elevar o seu pensamento a Deus, autor de tanta beleza (pg 16).

Desenvolvimentismo x sustentabilidade

As estradas, os novos cultivos, as reservas, as barragens e outras construções vão tomando posse dos habitats e, por vezes, fragmentam-nos de tal maneira que as populações de animais já não podem migrar nem mover-se livremente, pelo que algumas espécies correm o risco de extinção (pg 28).

Se reconhecer o valor e a fragilidade da natureza e, ao mesmo tempo, as capacidades que o Criador nos deu, isto permite-nos acabar hoje com o mito moderno do progresso material ilimitado (pg 52).

Serviços ecossistêmicos

Seus meios (dos pobres) de subsistência dependem fortemente das reservas e dos chamados serviços do ecossistema, como a agricultura, a pesca e os recursos florestais.

Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem se adaptar: e isto, por sua vez, afeta os recursos produtivos dos mais pobres.

Adaptação baseada em ecossistemas (AbE)

Temos que recordar que os ecossistemas intervêm no sequestro de carbono, na purificação da água, no controle de doenças e infecções, na composição do solo, na decomposição de resíduos e muitíssimo outros serviços que esquecemos ou não conhecemos ainda.

Desmatamento

Quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em desertos áridos (pg 29).

Internacionalização da Amazônia

Há propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais (pg 29).*

Não sei no original com está, mas na edição brasileira o tradutor não separou a oração subordinada por vírgula. Isso quer dizer que se trata de uma adversativa, o que muda tudo no argumento papalino.

Áreas protegidas

Há lugares que requerem um cuidado particular pela sua enorme importância para o ecossistema mundial, ou que constituem significativas reservas de água, assegurando, assim, outras formas de vida (pg 29).

Florestas plantadas

Habitualmente, também não se faz objeto de adequada análise a substituição da flora silvestre por áreas florestais com árvores, que geralmente são monoculturas (pg 30).

Privatização

Cresce a tendência para se privatizar este recurso escasso, tronando-se uma mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito essencial (pg 25).

Ciências ambientais

É preciso investir muito mais na pesquisa para se entender melhor o comportamento dos ecossistemas e analisar adequadamente as diferentes variáveis de impacto de qualquer modificação importante do meio ambiente (pg 31).

Antropoceno

Numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases de efeito estufa emitidos sobretudo por causa da atividade humana (pag 22).

Gentrificação

Em alguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza: noutros criaram-se áreas residenciais “ecológicas” postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem e perturbem uma tranquilidade artificial (pg 32).

MDL

As regiões e os países mais pobres têm menos possibilidade de adotar novos modelos de redução do impacto ambiental (pg 37).

COPs

A submissão da política à tecnologia e à economia demonstra-se na falência das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente (pg 38).

Greenwashing

Este comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e consumo. É uma forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os vícios autodestrutivos: tenta não vê-los, luta para não reconhecê-los, adia as decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido (pg 40).

Preservacionismo

Outros pensam que o ser humano, com qualquer uma das suas intervenções, só pode ameaçar e comprometer o ecossistema mundial, pelo que convém reduzir a sua presença no planeta e impedir-lhe todo o tipo de intervenção.

Socioambientalismo

Não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus.

Não há ecologia sem uma adequada antropologia (pg 75).

Sustentabilidade

Lv 19,9-10 – “Quando fizerdes a colheita na vossa terra, não deveis ceifar até o último limite do campo” (pg 49).

Divinização da natureza

Também não requer uma divinização da terra, que nos privaria da nossa vocação de colaborar com ela e proteger a sua fragilidade. Esta concepções acabariam por criar novos desequilíbrio, na tentativa de fugir da realidade que nos interpela (pg 59).

Reforma agrária

Isto significa que, além do título de propriedade, o camponês deve contar com meios de formação técnica, empréstimos, seguros e acesso ao mercado (pg 62).

Cultura ecológica

Um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponha resistência ao avanço do paradigma tecnocrático (pg 71).

Programas de transferência de renda

Ajudar os pobres com dinheiro deve ser sempre um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objetivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho (pg 80).

Agricultura familiar X agronegócio

Há uma grande variedade de sistemas alimentares rurais de pequena escala que continuam a alimentar a maior parte da população mundial, utilizando uma porção reduzida de terreno e de água e produzindo menos resíduos, quer em pequenas parcelas agrícolas e hortas, quer na caça e recolha de produtos silvestres, quer na pesca artesanal.

As economias de larga escala, especialmente no setor agrícola, acabam por forçar os pequenos agricultores a vendar as suas terras ou a abandonar as suas culturas tradicionais (pg 81).

OMGs

Embora não disponhamos de provas definitivas acerca do dano que poderiam causar os cereais transgênicos aos seres humanos e apesar de, nalgumas regiões, a sua utilização ter produzido um crescimento econômico (…), na sequência da introdução dessas culturas, constata-se uma concentração de terras produtivas na mãos de poucos, devido ao “progressivo desaparecimento de pequenos produtores” (pg 84).

Economia ecológica

É necessária uma ecologia econômica capaz de induzir a considerar a realidade de forma mais ampla. Com efeito, “a proteção do meio ambiente deverá constituir parte integrante do processo de desenvolvimento e não poderá ser considerada isoladamente”. (pg 89)

Salvaguardas de Redd+

Mais diretamente, pede que se preste atenção às culturas locais, quando se analisam questões relacionadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a linguagem técnico-científica com a linguagem popular (pg 91).

Combustíveis fósseis

Sabemos que a tecnologia baseada nos combustíveis fósseis – altamente poluentes, sobretudo o carvão, mas também o petróleo e, em menor medida, o gás – deve ser, progressivamente, e sem demora, substituída (pg 102).

Crédito de carbono

As estratégias de compra-venda de “crédito de emissão” pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Esse sistema parece ser solução rápida e fácil, com aparência de um certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de foram alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e setores (pg 105).

OnGs

A sociedade, através de organismos não-governamentais e associações intermédias, deve forçar os governos a desenvolver normativas, procedimentos e controles mais rigorosos (pg 109).

Estudos de Impactos Ambientais

Um estudo de impacto ambiental não deveria ser posterior à elaboração de um projeto produtivo ou de qualquer política, plano ou programa. Há de inserir-se desde o princípio e elaborar-se de forma interdisciplinar, transparente e independente de qualquer pressão econômica ou política (pg 110).

Transparência nos processos decisórios

É preciso haver sinceridade e verdade nas discussões científicas e políticas, sem se limitar a considerar o que é permitido ou não pela legislação (pg 111).

Mineradoras

Se o Estado não cumpre seu papel na região, alguns grupos econômicos podem-se apresentar como benfeitores e apropriar-se do poder real, sentido-se autorizados a não observar certas normas até se chegar às diferentes formas de criminalidade organizadas.

Educação ambiental

Se, no começo, estava muito centrada na informação científica e na conscientização e prevenção dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma crítica dos mitos da modernidade baseados na razão instrumental (…) e tende também a recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A EA deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de reordenar os itinerários pedagógicos de uma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado apoiado na compaixão (pg 124).

REDD

A estratégia de compra-venda de « créditos  de emissão» pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e sectores (pg 132)

Bosque sagrado (Espaços sagrados)

Pela variedade das suas árvores e pelo canto suaves das aves, oferecem grande divertimento e encanto aos sentido e, na sua solidão e silêncio, dão refrigério e repouso: como estes vales, é o meu Amado para mim (pg 136).*

E isto, não porque as coisas limitadas do mundo sejam realmente divinas, mas porque o místico experimenta a ligação íntima que há entre Deus e todos os serer vivos e, desse modo, “sente que Deus é para ele todas as coisas”.

* Já escrevi sobre esse tema aqui no blog: Florestas sagradas como áreas protegidas

(1) “Industrialization and Captalism in the work of Max Weber”, de Herbert Marcuse.