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Em busca de uma solução para o Cerrado

carneiro no cerrado

Arnaldo Carneiro: O Cerrado é o espaço dos falsos dilemas

Em março deste ano, o pesquisador Arnaldo Carneiro saiu em expedição Cerrado adentro para levantar material sobre atual geografia de ocupação do bioma.

Levou consigo o filmmaker Todd Southgate pra registar tudo que visse e ouvisse no caminho. Recolheu um super material com vozes de vários atores ligados aos problemas do uso insustentável do bioma. Autoridades, cientistas, cerradenses, geraizeiros,  quilombolas, etc.

Partiram de Brasilia em direção ao Matopiba e durante 10 dias percorreram 3,8 mil km dentro.

Arnaldo conta que o Cerrado virou um espaço de disputa de falsos dilemas: “a produção acredita que a conservação atrapalha o seu negócio, e os conservacionistas acreditam que a produção vai engolir todo o Cerrado”, afirma. “Mas a verdade, é que há espaço para todas as agendas: social, econômica e da conservação.”

Mudança do clima

O documentário também aborda como a crise do clima afetará o bioma. Segundo Carneiro, os impactos tendem a ser graves e não deverão poupar a agricultura empresarial. “Com a mudança do clima, a agricultura que se expande para o Matopiba poderá ser efêmera”, alerta.

Ele ouviu a professora Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da UnB, que também prevê um cenário difícil para a agricultura na região, “com a mudança do clima, os custos com defensivos e fertilizantes deverão crescer enormemente para manter a produção”, avalia.

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Mercedes Bustamante (Eco/UnB): sem sustentabilidade, a agricultura vai sofrer

Mas Carneiro aponta soluções. “Temos de olharmos as terras já ocupadas, elas podem ser um campo de expansão da produção”, avalia. “Trata-se de uma área de 35 milhões de ha com aptidão para receber agricultura”, garante.

Produzir é conservar – Já alguns anos Carneiro vem estudando a transformação por que passa o Cerrado. Recentemente publicou um estudo sobre o tema, que serviu de base para a rota da expedição. Veja aqui: Produzir é conservar.

O documentário ainda não está pronto. Parte da narração está em inglês e ainda não tem legendas. Mas o material já é uma aula sobre o Cerrado. Clique no link abaixo:

Em busca de uma solução para o Cerrado

 

carneiro quilombola

Quilombola: 80% de suas áreas no Tocantins foram invadidas pelo agronegócio

 

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Lenha ainda é essencial para 24% das residências no Brasil

Fundada em 2004, a Empresa de Pesquisa Energética – EPE, ligada ao Ministério das Minas e Energias, produz informações para subsidiar o planejamento do setor energético, inclusive nas áreas de energias renováveis e eficiência energética. Anualmente lança o Balanço Energético Nacional – BEN, que elenca as principais fontes energéticas usadas no país, discriminando pelo tipo de demanda.

O BEN 2017 deverá sair no final do ano, mas o relatório síntese, com dados de 2016, já está disponível no site da empresa. (Juntamente com o Plano Decenal de Expansão de Energia – PDE.) Como não poderia deixar de ser, o relatório identifica uma retração na oferta geral de energia no país, entorno de 3,8% em relação a 2015, que, por sua vez também foi um ano de baixa. A boa notícia foi a maior participação das renováveis na matriz elétrica, que saltaram de 75,5% para 81,7%, em relação ao período anterior.

Mas o que interessa para esse espaço são os índices referentes ao consumo de lenha e seus subprodutos, cavaco e lixívia, destinados à produção de calor de processo e eletricidade na indústria. Principalmente no setor Têxtil, Alimentos e Bebidas e Cerâmica. Esta última, alvo de operações do Ibama no passado recente. Veja reportagem, aqui.

E não é só na indústria, muitas residências, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, ainda dependem da lenha para seu consumo diário. Em 2016, 24% do consumo desse setor foi à base dos produtos e subprodutos da madeira – figura 1.

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Figura 1 – fonte: EPE/MME

 

Para ajudar a analisar melhor esses dados, a EPE gentilmente cedeu o analista de pesquisa energética da Superintendência de Estudos Econômicos e Energéticos – DEA, Rogério Matos, que respondeu algumas perguntas para o site.

1 – 8,6% da energia usada pela indústria é lenha. Quais as fontes de pesquisa?

A coleta sistemática de dados primários desta fonte energética constitui-se uma tarefa de difícil equacionamento, pois é alto o grau de dispersão dos usuários de produtos e subprodutos florestais para fins energéticos, sendo ampla a sua disponibilidade na natureza e baixo o nível de formalidade em sua comercialização.

O Balanço Energético Nacional – BEN contabiliza o uso energético da lenha a partir de informações obtidas via coleta de dados junto aos setores industriais e da utilização de indicadores tais como o consumo específico para os setores industriais mais homogêneos.

Novas pesquisas junto aos setores econômicos deverão ser realizadas com o objetivo de atualizar indicadores e aprimorar as estatísticas referentes ao consumo energético da lenha.

2 – Essa lenha é oriunda de onde? São áreas manejadas, retiradas de áreas nativas ou subproduto de outra atividade? Tem como aferir o percentual de ilegalidade dessa produção?

O BEN contabiliza o consumo total de lenha no Brasil, não fazendo distinção sobre a sua origem.

3 – O PDE diz que até 2026, o uso da lenha na indústria deverá cair só 2%, residencial ficará em 7%. Com a insustentabilidade da extração, as fontes não correm o risco de se esgotar?

figura 2

Figura 2  – fonte: EPE/PDE

No PDE 2026, o crescimento da economia brasileira levará a uma expansão da indústria, principalmente através da ocupação de capacidade ociosa, o que leva necessariamente a um incremento da demanda energética advinda de diversas fontes, dentre as quais, a lenha.

O consumo de lenha no setor industrial é focado em alimentos e bebidas, cerâmica e papel e celulose. Nos dois primeiros segmentos, o consumo final de lenha cresce abaixo das médias históricas observadas nestes segmentos, a partir da adoção da premissa de substituição por outras fontes. No caso de papel e celulose, é de conhecimento que o plantio de eucaliptos a serem utilizados na produção de celulose é comum; parte-se do princípio que a lenha utilizada neste segmento terá origem legal, a partir de manejo florestal/florestas plantadas.

Nota-se que o consumo de lenha apontado por nossa modelagem é o total, ou seja, não se faz distinção entre lenha de desmatamento, catada ou advinda de silvicultura.

No caso do consumo residencial, como premissa, considera-se a lenha como um energético não comercial. Contudo, a participação de 15% em 2016 não se refere à energia útil, ou seja, considerando o rendimento energético da lenha, quando comparado com o seu principal substituto, o gás liquefeito de petróleo (GLP), o consumo de lenha é relativamente menor. Nesse sentido, a queda do consumo residencial de lenha é de 24% entre 2016 e 2026.

4 – A indústria têxtil costumava ser um dos setores que mais consumia. Por que não é mais?

A lenha no setor têxtil historicamente sempre teve como principal destinação final a geração de calor de processo, competindo ao longo das décadas 1970 e 1980 com o óleo combustível.

A partir da década de 1990, verifica-se a estabilização da participação da lenha em torno de 8% e o avanço do gás natural substituindo não só a lenha, mas principalmente o óleo combustível. Observe ainda que ao longo de todo o período apresentado na figura 3, a eletricidade tem sua participação continuamente crescente acompanhando o processo de modernização do setor.

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Figura 3 – fonte: EPE/MME

5 – Hoje os maiores consumidores de lenha na indústria são Papel e Celulose, Cerâmica e Alimentação. Tem como saber se esse uso é sustentável? Por que não há previsão de substituição?

A principal matéria prima do setor de papel e celulose é a madeira, oriunda de florestas plantadas (eucalipto e pinus). Os subprodutos da madeira destinada à produção de celulose: cavaco e lixívia são destinados à produção de calor de processo e eletricidade. Veja o comportamento das fontes na figura 4.

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Figura 4 – fonte: EPE/MME

No caso da indústria de cerâmica, a participação da lenha sempre foi majoritária quando comparada com as demais fontes, particularmente no segmento de cerâmica vermelha. Somente a partir dos anos 2000, o gás natural começa a avançar, deslocando principalmente o óleo combustível. Diferentemente do setor de papel e celulose não se pode afirmar que a origem da lenha consumida advenha de florestas plantadas.

O ritmo de substituição da lenha dependerá da penetração regionalizada de outras fontes energéticas, a exemplo do gás natural, dado que o segmento de cerâmica vermelha tem como característica a dispersão espacial, figura 5.

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Figura 5 – fonte: EPE/MME

O setor de alimentos e bebidas tem como principal fonte energética o bagaço de cana, figura 6, destinado à produção de calor de processo e eletricidade. A partir dos anos de 1990 a lenha vem reduzindo a sua participação no setor, sendo gradativamente substituída pelo bagaço e também em decorrência da eletrificação dos processos produtivos.

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Figura 6 – fonte: EPE/MME

 6 – No PDE, a abordagem sobre mudança do clima é só em relação às metas do Brasil de redução das emissões dos GEE. Mas a mudança do clima deve impactar as próprias fontes de energia. Tem algum estudo?

O PDE considera, pelo lado da demanda, algumas tendências de substituição de fontes energéticas, considerando-se um ambiente de ganho de importância das mudanças climáticas, de melhor qualidade de vida e de economicidade das fontes, por exemplo: eletrificação da economia, a penetração do GLP no setor residencial em detrimento da lenha e a competição entre óleo combustível (maior potencial emissor de GEE) e gás natural (menor emissão de GEE) em alguns segmentos industriais. As ações de eficiência energética também contribuem para reduzir a demanda potencial, levando a uma necessidade de expansão da oferta de energia.

Pelo lado da oferta, o PDE considera a maior penetração de fontes renováveis, sob forma centralizada ou distribuída, além das consequentes adaptações da operação e do planejamento do sistema elétrico às características intrínsecas destas fontes, como sazonalidade e intermitência.

O principal estudo a ser tomado como referência é o World Energy Outlook, que apresenta cenários de esforço no combate às mudanças climáticas em termos mundiais. Seguem os links para referência:

World Energy Outlook 2016: https://www.iea.org/newsroom/news/2016/november/world-energy-outlook-2016.html

World Energy Outlook 2016 (EXECUTIVE SUMMARY): https://www.iea.org/publications/freepublications/publication/WorldEnergyOutlook2016ExecutiveSummaryEnglish.pdf

Para o relatório síntese do BEN 2017, clique aqui

Um Xingu de gente contemporânea

Carona, na aldeia Piyulewene

Para Fernando Bittencourt

Quando desembarquei em Canarana, cidade vizinha do Parque Indígena do Xingu, tinha um artigo pronto na cabeça.

Queria tratar da sofisticação das relações políticas dos índios reunidos naquela reserva. Levava leituras prévias de textos como a “Sociedade Contra o Estado” e alguns do filósofo francês Michel de Certeau.

Entretanto, quando começou meu contato, meu artigo esfarelou. Tudo que era certeza virou dúvida. Esses textos teóricos se revelaram pueris e esquemáticos.

A realidade daquelas pessoas não é fácil de interpretar. Suas relações são como cipó entre as árvores.

O que via não entendia. Recorri a intérpretes que, quanto mais me explicavam, menos entendia. Quando sentava pra reescrever, me sentia num labirinto de percepções.

Só dentro das aldeias, convivendo com os índios, as ideias começaram a se desvelar.

Segundo Katia Onu, do Instituto Socioambiental, a discussão não é tecnologia ou não tecnologia. E sim como ela pode ajudar no desenvolvimento da cultura deles.

Exemplo disso percebi no diretor regional da ATIX, Bebeto Napikï. Sua gestão é refém da tecnologia. A final de contas, tem de tocar uma pauta enorme no Médio Xingu. Trabalho exaustivo que exige negociação entre as etinias e principalmente na relação com o branco.

Com uma voadeira como motor 40hps, agora Bebeto ganhou autonomia. Não corre mais risco de, quando chegar pra negociar com a contraparte, o acordo já ter caducado.

Mesma coisa com o jovem pai de família Kamati Ikpeng. Ele está sempre com a filmadora. Documenta tudo. Durante minha estadia no polo Pavuru, no médio Xingu, Kamati filmava o tempo todo. Assisti a um material dele sobre um ritual de passagem juvenil, quando os jovens da tribo são tatuados. O cara sabe construir uma narrativa a partir da edição.

Havia várias tomadas do alto que ele fazia pendurado nas cumeeiras. Kamati me explicava como, manejando um drone, vai poder fazer ainda melhor.

Katia me explicou que essa desenvoltura não é incomum entre esses jovens. Na verdade, é curioso como eles parecem se dar melhor com a tecnologia da imagem do que com a da escrita.

Na escola municipal na aldeia Piyulewene dos Wuará, o professor Daikir reune seus alunos depois do almoço. Como a prefeitura de Gaúcha do Norte ainda não construiu a escola de alvenaria na aldeia, eles organizaram salas multisseriadas abrigadas por uma árvore de pequi. 

Três grandes galhos e duas paredes de madeira fazem as vezes das divisórias. A aula dos mais novos hoje vai abordar a grafía da língua materna, do tronco Aruak.

Enquanto explica o exercício, o professor não cobra atenção das crianças, que permanecem em silêncio, mas se levantam quando bem entendem.

Dificil é quando têm de ir lá na frente ler em voz alta as frases no quadro branco. Quando alguém não consegue ler, como eu, os alunos caem na gargalhada. Me lembrei de quando sofria a mesma situação na idade deles.

Daikir está obeso. Depois que virou educador “civilizado”, guerreiro da preservação da sua língua materna, trocou seus hábitos alimentares. Seu exame de diabetes chocou toda a aldeia.

Agora ele vai ter de escutar a sogra. Cozinheira de mão cheia que se ocupa de uma espécie de cozinha coletiva, preparando biju, tratando o peixe fresco que o neto trouxe de moto lá da lagoa.

Obesidade não parece problema para os jovens das aldeias que visitei. Galera malhada, orgulhosa de seus corpos. 

Às 16hs, na aldeia Moygu, eles se reúnem para jogar futebol. Primeiro o feminino; depois o masculino. Nessa hora, esses jovens pouco diferenciam de seus contemporâneos ocidentais. O uniforme completo, juiz e rede branca atada nas balisas. As meninas vêm de rabo de cavalo. Lindas!

Os meninos jogam duro. Não consegui distinguir ninguém com toque de bola diferenciado.

A poeira sobe.

Depois do jogo, debatendo com Kamati, percebi que ele tinha lido a partida melhor do que eu. Ele sabia do que estava falando.

Futebol é linguagem. Nenhum outro assunto rendeu mais naqueles dias, do que falar sobre craques, times, copa do mundo.

A bola rola em Moygu — futebol é linguagem

Queria ver também o jogo dos Wuará, mas a aldeia estava de luto. Um velho ancião da tribo está na UTI em Brasilia. Segundo os parentes, só as máquinas não entenderam que a alma do velho já partiu.

O fato é que depois que você convive com essa gente, conhece suas histórias, ouve seus mitos, vê as crianças brincando, doi no peito na hora de ir embora.

E eles parecem sentir o mesmo. Foi assim com os Ikpeng; repetiu depois com os Waurá.

Eles me perguntavam quando eu voltaria. E eu sempre inventava uma data pro peito parar de arder.

Aprender com os índios

Adri

Adriana Ramos: óculos, colar e aliança

Adriana Ramos coordena o Programa de Política e Direito do Instituto Socioambiental. É carioca, mas sua atuação na área de políticas socioambientais, que já vai para mais de 20 anos, a trouxe para Brasília. Jornalista de formação, acumula as funções de mãe, esposa, filha, tia, dona de casa, cidadã do Brasil e do mundo. E mesmo assim encontrou tempo para conversar comigo sobre o Dia do Índio.

Dia 19 de abril é o Dia do Índio. Algo a comemorar?

Adriana Ramos – A única coisa a comemorar é que os índios brasileiros têm demonstrado que formam o movimento social mais interessante e inovador que há no país. Diante das adversidades, consegue unir todas as diferenças – que não são pequenas: 252 etnias no Brasil, com diferentes formas de fazer política.

Não há dúvida que o movimento indígena está à altura do grande desafio que se apresenta para ele no momento: a desconstituição dos seus direitos. Esse desafio faz o Brasil estar numa situação que, ao invés de comemorar os direitos vigentes e sua implementação, se vê obrigado a lutar para garanti-los.

Rede – Há um protagonismo maior dos índios atualmente?

Adriana Ramos – Sim. Quando o inimigo é maior a união é inevitável. Hoje, vivemos uma época onde muitas máscaras começam a cair. Estão ficando claras as vinculações dos governos com os setores que agem mais violentamente contra os povos indígenas. Está claro o preconceito escancarado unido à violência bruta. Tudo isso mostra aos índios quem são seus inimigos.

Eles se mostram nos discursos da bancada ruralista no Congresso. Nos atentados contra os indígenas, perpetrados pelos proprietários de terra no Mato Grosso do Sul. E nas próprias ações dos governos contrárias aos interesses dos povos indígenas.

 

Rede – Quando falo do protagonismo, incluo uma crescente presença de membros de determinadas etnias nas redes sociais, produzindo arte, se mostrando autodeterminados, denunciando injustiças.

Adriana Ramos – É verdade. Hoje cada um pode dar sua opinião. É o que Marina Silva chama de “militância autoral”. Quando não havia redes sociais, a gente só podia ouvir a opinião majoritária reproduzida pelos meios tradicionais de comunicação. As disputas de discursos aconteciam dentro das instituições, dentro dos meios de comunicação. Só chegavam à população quando já estavam “resolvidas”.

Hoje isso mudou. As discussões acontecem diariamente tanto nas redes sociais, quanto nos encontros presenciais.

 

Rede – Mas o preconceito contra esses povos arrefeceu?

Adriana Ramos – Ainda persiste um grande preconceito contra os índios. Só aprendemos o que eles foram no passado. As escolas não mostram os índios no nosso presente. Isso forma uma grande confusão na cabeça dos brasileiros. Confusão que ajudou a esconder o preconceito cultivado contra esses povos.

Preconceito que só foi reconhecido e demonstrado recentemente. A partir do momento em que apareceram esses discursos mais inflamados, de gente como o deputado Luís Carlos Heinze que veio com aquela de que “índios, gays, quilombolas são tudo que não presta”.

Por outro lado, permanece uma visão bastante romantizada do papel dos índios na formação cultural brasileira. Então, se de um lado tem o preconceito, do outro há simpatia. Duas visões em disputa.

Foi por isso que o ISA desenvolveu a campanha “Menos Preconceito, Mais Índio”. A ideia é mostrar que os índios podem, sim, usar celular, vestir roupas, ver TV, sem por isso deixarem de ser índios. Não é isso que faz a diferença entre índios e não-índios.

 

Rede – O que é ser índio na contemporaneidade?

Adriana Ramos – Ser índio é se reconhecer como índio e ser reconhecido como índio em uma comunidade. Já os povos indígenas são aqueles que guardam relações cosmológicas, de herança cultural com povos pré-colombianos.

Nesse momento, ser índio é um grande desafio, que a maior parte dos povos indígenas está enfrentando: lidar com as instituições dos estados nacionais na busca de condições dignas de vida, de educação e de manutenção de seus modos tradicionais.

Uma coisa que revela muito o preconceito contra eles (e que mostra também nossa falta de autocritica) é essa ideia de achar que os povos indígenas vivem de uma forma atrasada, que deveriam viver como a gente vive.

Isso tem de mudar.

Para citar um exemplo próximo, estamos em Brasília, na capital do país, com racionamento de água, em período chuvoso, porque não conseguimos preservar nossos recursos hídricos nem manter as nascentes e matas que contribuem para a chuva.

Mesmo assim, a gente se acha mais inteligente e mais capaz que essa população. População que, durante milhares de anos, foi capaz de usar e preservar os recursos naturais de seus territórios, vivendo de maneira bastante original.

Temos de olhar para os índios com a possibilidade de interação entre nossa sociedade e as deles. Hoje as universidades estão se abrindo para centenas de estudantes indígenas. São advogados, médicos, professores, linguistas, alunos indígenas de mestrado, doutorado. Essa troca é positiva e salutar.

 

Rede – Em um momento de crise política como a que vivemos, o conhecimento milenar desses índios não teria algum ensinamento que nos servisse?

Adriana Ramos – Sem dúvida. Isso está bem descrito nos estudos antropológicos. Seria importante conhecermos como diferentes povos indígenas vizinhos se relacionam. Como diferentes sistemas políticos, que variam de etnia para etnia, conseguem, por exemplo, interagir numa governança territorial.

O melhor exemplo é o Parque Indígena do Xingu. São 14 etnias, algumas bastante distintas e contraditórias entre si. Com inúmeras diferenças de relações de poder. Mas mesmo assim conseguem se reunir, elaborar um plano de gestão para o território, incluindo as próprias visões e regras, e partem para uma gestão integrada.

Eles têm muito a ensinar porque é um repertório de visões de mundo muito mais rico do que as hegemonias que a gente se acostumou a adotar, mas que demonstram hoje uma limitação imensa para lidar com diferentes aspectos da nossa vida.

 

REDE – Qual o futuro da Funai?

Adriana Ramos – Precisamos de um órgão como a Funai. Um órgão que olhe para os povos indígenas de uma forma diferenciada. Mas já há algum tempo que a Funai teria de ter sido reforçada para cumprir papéis mais exclusivos e nobres, como as questões das terras indígenas.

Não existem recursos para a gestão dessas terras, nem para apoiar os povos indígenas nas relações com outras sociedades, dentro de uma lógica de fortalecimento de protagonismo. Uma vez que não há mais espaço para a tutela. Nem no nosso ordenamento jurídico, nem na nossa consciência.

No entanto outros órgãos de governo têm de ter suas responsabilidades em relação a eles. Como já acontece no caso da saúde e da educação.

Ao contrário do que teorias conspiratórias dizem (que haveria interesse de povos indígenas em transformar seus territórios em nações independentes do Brasil), os índios brasileiros vêm na verdade pedir apoio ao estado. Eles querem ser parte do país.

O enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense deste ano foi muito feliz em reconhecer isso. Todas as grandes campanhas por territórios demarcados, como nos casos da Rapoza Serra do Sol, das terras yanomami, waiãpi foram campanhas para uma maior participação dos índios na sociedade brasileira. Eles sempre apareciam com a bandeira brasileira como símbolo.

 

Rede – A Executiva Nacional da Rede enviou uma mensagem aos filiados para que se mobilizassem no Abril Indígena. O que você sugere?

Adriana Ramos – Em Brasília, teremos entre os dias 24 e 28 de abril o Acampamento Terra Livre, que é a maior manifestação da mobilização nacional indígena.

Tem duas formas de participar. Uma campanha de arrecadação de recursos no site Vakinha. E uma outra, convidando as pessoas para ajudar no quer for preciso durante os quatro dias.

Essa mobilização é acompanhada por eventos semelhantes nos estados. As pessoas podem se informar para poder ajudar.

É muito importante que elas estejam presente nas manifestações, demostrando sua solidariedade e que compartilhem nas redes sociais as demandas que os indígenas vão apresentar. É desse tipo de apoio que o movimento indígena precisa para seguir na luta.

Quem quiser se cadastrar para ajudar no Acampamento Terra Livre 2017 em Brasília, clique aqui.

O Agro desemprega!

ocupação agro

Fonte: IBGE, Contas Nacionais, Tabelas Sinóticas. Tabela 15.1 – Total de ocupação segundo os grupos de atividades – 2000-2014.

Segundo Cadu Young, economista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro “O Agro desemprega!

Num post hoje cedo aqui no FB, o colunista de O Eco, disse estar preocupado com a reação à Operação Carne Fraca, acusada de ser um “golpe” a um setor “moderno e dinâmico”.

Cadu ironiza: “tão moderno quanto o latifúndio e tão dinâmico quanto nossa economia colonial. Apenas um dado: apesar de todo crescimento do setor e da população, o setor agropecuário foi o MAIOR DESEMPREGADOR no período 2000-2014”.

Nesse período, o número absoluto de ocupações reduziu em 2,6 milhões de postos, segundo o IBGE. É mesmo o campeão nacional da expulsão de mão de obra. Se o corte for só sobre pecuária e pesca, a perda de ocupações do “Campeão Nacional” em financiamentos do BNDES foi de (-) 1,6 milhões de postos.

Em 2000, havia 8,85 milhões na atividade. Em 2014, depois de todo o dinheiro público nos investimentos de Friboi, JBS & Cia., o número de ocupações caiu para 7,29 milhões. Informações da Tabela 15.2 (mesma fonte acima).

Post 2

O pânico causado pela Carne Fraca deve-se ao fato de que o Agro é cada vez mais dependente de exportações de matérias primas in natura, sem processamento.

Em 2000, as exportações de produtos agropecuários in natura (soja e outros grãos, principalmente) representava 7,8% do destino de toda a produção. Em 2014, essa proporção subiu para 17,1%.

Os produtos da pecuária, que são classificados como “industriais” mas que são basicamente produtos do abate sem maior processamento, tiveram desempenho semelhante: as exportações saltaram de 9,6% da demanda total em 2000 para 18,9% em 2014 (Fonte: IBGE, Contas Nacionais, Tabelas de Uso Retropoladas 2000-2014).

Ou seja, apesar de todo investimento público e toda a propaganda de que o “Agro é tech”, o modelo de desenvolvimento baseado na expansão agropecuária é cada vez mais regressivo a um país exportador de produtos primários sem transformação. Como nos tempos coloniais.

 

 

Artigo: Economia Florestal Comunitária e Familiar na Amazônia

foto: Luiz da Motta

Extrativista de produtos florestais não madeireiro na Flona Tapajós/PA


Community forest economy in the Amazon

Claudia Azevedo-Ramos – Doutora em Ecologia. Professora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) /UFPA, Belém, PA – claudia.azevedoramos@gmail.com
Jessica Pacheco – Graduada em Direito. Discente de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido -PPGDSTU/NAEA/UFPA, Belém, PA- jessicapacheco02@hotmail.com

RESUMO

Quase metade das florestas públicas brasileiras está destinada a comunidades tradicionais e assentados da reforma agrária, a maioria localizada na região Amazônica. Embora os desafios pareçam sobrepujar os esforços, o desenvolvimento de uma economia florestal é fundamental para a manutenção dessas florestas sociais. Este estudo revisa a evolução do manejo florestal comunitário e familiar na Amazônia, particularmente, à luz das políticas públicas direcionadas e das mudanças no arcabouço legal, a fim de compreender sua dinâmica e apresentar soluções para o fortalecimento da atividade. Apesar da constatação da evolução estrutural das políticas, sua efetividade é contestada pela permanência dos problemas crônicos após duas décadas de fomento. Como contribuição, propomos estratégias que permitam primeiro destravar o setor, fazendo com que produtos florestais legais e de origem comunitária e familiar abundem o mercado, fortalecendo a inclusão social.

Palavras chaves: Amazônia. Brasil. Manejo florestal comunitário e familiar.

ABSTRACT

Nearly half of Brazilian public forests is allocated to traditional communities and agrarian reform settlers, mostly located in the Amazon region. Although the challenges seem to threaten the efforts, the development of a forest economy is essential to maintain these social forests. This study reviews the evolution of community and family forest management in the Amazon, focusing on public policies and legal frameworks in order to understand their dynamics and to present possible solutions to strengthen the activity. Despite the evidence of structural policy evolution, its effectiveness is challenged by the permanence of chronic problems after two decades of investments. As a contribution, we propose strategies to unlock the forest sector firstly, making legal forest products from small producers abound in the market, strengthening social inclusion. In a second moment, other important factors for development of forest production chains may be improved.

Key words: Amazon. Brazil. Community forest management.

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A espiral da noite adentro

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Uma viagem abordo da Espiral da Morte – livro de Claudio Angelo sobre a mudança do clima

Sem querer estragar o Natal de ninguém com má notícia, A Espiral da Morte é uma excelente dica para quem procura um presente inteligente e comprometido para esse final de ano.

Ganhei o livro no final de semana passado da Cristiana e não consegui largar ainda. Tinha pensado em deixar para ler nas férias. Só que, no domingo à noite, esperando o sono chegar, resolvi abrir o livro só para ler as fotos. Resultado: consegui fechar apenas às três horas da manhã.

Não só pelo que tem de informação, mas principalmente pela narrativa ágil e factual. Com poucos números. Bem diferente dos textos sobre o tema que somos obrigados a ler, cheios de modelagens matemáticas, que parecem querer nos adiantar o Antropoceno.

A narrativa que Claudio tece é basicamente costurada a partir de bate-papo com os cientistas. E empestada de piadas. Bem ao gosto do autor, que nasceu na Bahia, aprendeu a tocar rock em Brasília e foi virar nerd em São Paulo.

Sou leitor empedernido de narrativas de viagens. Leio todo dia. Quando embarco nessas histórias, vejo as páginas do livro se repetindo como ondas que vêm bater no costado do navio, uma após a outra. Se for colhido por uma tempestade, me agarro às páginas do livro e sou o último a abandonar a embarcação.

Mas, se for à pique, não vejo a hora de bater em uma ilha ensolarada, para encontrar povos nativos ou, quem sabe, Charles Darwin observando tartarugas. Acho que isso que me levou madrugada adentro a bordo da Espiral da Morte.

Claudio Angelo acompanha o leitor em uma viagem às paisagens cheias de cores e cheiros da mudança do clima, onde as geleiras em colapso fazem barulho ao provocar terremotos. Jurupocas científicas vão e voltam pelo globo, levando cientistas barbudos, fedorentos para as profundezas dos oceanos ou dentro de uma caverna em Santa Catarina.  A cada página virada parece que o próprio Capitão Nemo estará à espreita, para nos levar reféns a bordo do Náutilus.

Tanto que comecei a ler passagens do livro para meu filho Pedro de 11 anos. Ele logo se ligou na exótica vida da Groenlândia, onde cocô se faz em balde e para ir ao cinema tem de pegar avião.

Aproveitei o gancho da viagem com a NASA para comentar que o tal Trump, que ele vê na TV, ameaça suspender as pesquisas que a agência faz no gelo. – Só porque ele ganha dinheiro com o petróleo. – O quê?! Reagiu Pedro, com olhos arregalados.

Ontem à noite, eu e ele começamos a ler o capítulo sobre os ursos-polares. Percebi que, enquanto lia, ele se imaginava dentro da história, jogando fut contra a Noruega numa banquisa, em pelo Ártico, sem poder deixar a bola cair na água gelada, nem tirar o olho da neblina, com medo de ser surpreendido por um bicho de 600 quilos que dá sprint de 30 km/h, como Claudio conta no livro.

Mas aí Pedro dormiu. O ano escolar acabou e ele tem chegado bem cansado à noite em casa.

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Professor Aronnax, a bordo do Náutilus, provavelmente lendo Júlio Verne