Archive for the ‘Educação ambiental’ Category

Mata Atlântica como suvenir

Floresta Virgem em Mangaratiba, na província do RJ

foto: Luiz Felipe Kunz

Rebio da Serra Geral/RS

As duas imagens acima compartilham o mesmo tema: a diversidade harmônica  da Mata Atlântica. Mas são separadas por 200 anos.

A primeira é uma fotografia relativamente atual que trata do interior da rebio estadual da Serra Geral. A segunda uma litografia impressa em Paris a partir de um desenho da Mata Atlântica, feito na primeira metade do século XIX, pelo pintor e desenhista alemão Johann Moritz Rugendas.

Rugendas veio ao Brasil acompanhado expedições cientificas europeias, mas se maravilhou pela fisionomia única da Mata Atlântica. Ao contrário de seus contemporâneos, ele percebeu que a magia da flora estava na harmonia do ambiente preservado e não secionada nos museus.

Já a foto do interior da rebio mostra que a área serve como um souvenir do que foi a Mata Atlântica um dia. Hoje quase inteiramente destruída pelo progresso brasileiro. (Nessa época a Alemanha, pátria de Rugendas, já conservava suas florestas.)

Esse extrato de Mata Atlântica só chegou aos nossos dias por estar numa área de acesso remoto — isolada entre cânions de três municípios do norte do RIo Grande do Sul.

Em 1982 o governo estadual transformou a área numa reserva biológica, com cerca de 4 mil hectares. Ampliados em 2002, por iniciativa do então chefe do Departamento de Floresta e Áreas Protegidas da Sema/RS, Luiz Felipe Kunz.

A fotografia é de 1995, tirada pelo próprio Felipe. Encontrei ontem escarafunchando seus arquivos que tratam de eras ultrapassadas: quando havia movimento ambientalistas no Rio Grande do Sul.

Mais sobre a Rebio da Serra Geral aqui.

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Tom Jobim: O Brasil é pura floresta

 

foto; João Bittar

Tom no jardim da casa dele no Rio

O Brasil é pura floresta.

Até o nome Brasil vem da floresta.

Outrora pensou-se em dar ao Brasil o nome de Ipê. Outra árvore ameaçada e linda! O ipê-roxo, o rosa e o amarelo! Amarelo Deus! Pau-d’arco, madeira de lei.

No dia da árvore fomos plantar uma no Parque Lage. Enquanto isso acontecia quimavam-se milhares de árvores no Brasil. Não só no dia da árvore, como todo o dia.

Mas que quer o Homem?

Queimar a floresta, matar os índios e os bichos, engaiolar os pássaros e escravizar a mulher.

Sempre falando em progresso e criando o deserto. Inventando a miséria na terra da opulência.

Brazil. Brasil, cadê o pau Brasil?

Zona da Mata! Cadê a mata?

Itabira do Mato Dentro, cadê o mato?

Boca do Mato? Cadê o mato?

Lá embaixo, vistas do avião, as voçorocas descomunais, as entranhas da terra à mostra, a terra cremada, erodida, levada pelas águas, as serras despencando, as pedras morro abaixo, o fogo morro acima indo buscar a última árvore, nas grimpas.

As cinzas negras flutuando no ar, na maria-preta, o estouro dos taquaruçus, a língua de fogo atravessando o rio e o fogo pulando para a outra margem.

Ar poluído, águas poluídas, (o outro lado).

Destruição do paraíso. Fim da vida vegetal e animal.

No Estado do Rio de Janeiro, na última estiagem de mais de quarto meses, vi, com estes olhos, mais de cem fogos! À noite o céu ficava vermelho, de dia, cinza. O ar, irrespirável, as lágrimas rolando, o claro no inverno, insuportável.

Total devastação! Holocausto! Crime hediondo!

O sítio de minha mãe parece a cratera de um vulcão. Alguns cínicos falam em combustão espontânea. Ora, o Brasil é um país chuvoso e hereditário. O Estado do Rio de Janeiro é um dos lugares onde mais chove no mundo. Parece que todos têm uma caixa de fósforo no bolso. Qualquer estiagem eles tentam, a ver se pega.

Perguntei a um, por que botar fogo?

Resposta: é bom, pra plantar feijão.

Perguntei a outro: pra que o fogo?

O fogo faz fumaça que sobe e forma as nuvens que se condensam em chuva, que é boa pra plantação!

Aquel’outro me disse que o C02 é bom para as plantas.

Nesse duro escritório, tudo vem da floresta.

As longas tabuas do chão.

A madeira do piano, o pau-rosa do violão, a lenha no fogo, o lápis com o qual eu escrevo essas linhas, a mesa, a cadeira que estou sentado, a porta, a janela.

Meu Deus, é tudo floresta!

Móvel, esta escrivaninha de onde vos escrevo estas maltraçadas…

É claro que para Deus nada disso tem importância, a Terra não fará falta nenhuma. Deus tem milhares de planetas com onça, anta, macuco, mutum, com jacarandá, jequitibá, ipê, maçarandubas fabulosas, nunca vistas aqui na Terra, com animais que se unem e plantas que florescem na desconhecida primavera de um planeta selvagem.

A FLORESTA ENCANTADA

Mas de repente falta água no Rio de Janeiro e D. Pedro II pede ao Major Gomes Archer que plante a floresta, ou seja, que replante a Floresta da Tijuca. Naquele tempo a água principal vinha do rio Carioca, que nasce nas faldas do Corcovado, descendo pelo Cosmo Velho, Santa Thereza e atravessando a Lapa pelo aqueduto, sobre os arcos, que levava água para o centro do Rio. Mas essa água não era suficiente. Dom Pedro II sabia que com o desmatamento da Serra da Carioca e do Maciço da Tijuca, os mananciais secariam. A devastação era muito grande.

Restaram poucos trechos da mata virgem original. Eles não pensaram em fazer um parque com árvores ou um santuário com animais silvestres.

Assim foi que em 1862, pensando na água, o Major Archer, ajudado por seis escravos, iniciou o plantio da Floresta da Tijuca!

Incrível Floresta! Além de espécies nativas, vindas de Guaratiba e das Paineiras, plantou também espécies exóticas, como mangueiras do sudeste asiático, jaca índica, eucaliptos australianos, jambo da Ásia, bambus, pinheiros e outras.

E o incrível é que essa Rain Forest, essa Cloud Forest não pega fogo!

Quantas e quantas vezes, andando pela floresta, vi velas acesas no oco do pau. Quantas vezes vi balões enormes caírem acesos na floresta. Estes balões navegam à noite, de Norte para Sul, tangidos por um fraco terral. No mais das vezes eles caem no mar, cruzando o litoral leste-oeste do Rio de Janeiro.

Assim como o homem devasta, corta, queima tudo para fazer lenha, carvão, e planta café e cana, de repente, por falta d’água, ele planta uma floresta! E que floresta!

Não é uma floresta interesseira, de uma só espécie, sem pássaros, sem bichos, não é uma floresta de pinheiros nem de eucaliptos, é uma floresta com milhares de espécies vegetais e animais. Conspurcada, invadida em mil lugares, sim, como motocicletas correndo pelas picadas, roubada de suas orquídeas, de suas borboletas, de suas avencas, de seu silêncio, de suas madeiras de lei, de seus palmitos, com caçadores penetrando e matando tudo que encontram, em qualquer época do ano. Outros pegam borboletas, os armadilheiros pegam tatus, lagartos, micos, macacos, esquilos, preguiças e muitos pássaros. E cerca a água, o bicho com sede se aproxima e cai na esparrela, na cilada, no mundéu, na ratoeira, no laço, na urupuca, o Homem é mestre em transformar o paraíso em inferno, incríveis maquinações!

A inteligência nos traiu, justamente quando esperávamos aplicá-la sobre as espécies menos favorecidas. E agora vamos aos peixes… no anzol, na rede, no veneno, na dinamite, no covão…

Meu bravo Major Acher: você sabia de tudo, você plantou mais de sessenta mil árvores. Deus está orgulhoso de você e eu estou feliz por você e não só por causa da água! Mas também.

Num agosto-setembro, quando a jacutinga busca nas grimpas o coco da juçara e o fruto do murici, caminhávamos o Elzo, eu e o Therezinho pela trilha batida da porcada, ao longo do paredão. Na fresca da manhã, nossas sombras davam para a esquerda. Sabíamos que seguindo o rastro da porcada encontraríamos a passagem que levava ao outro lado da montanha. Mas isso já é outra história…

Ofereço estas mal traçadas rinhas, estas mal traçadas vinhas aos ex-caçadores que tiveram compaixão de suas vítimas.

E por amar tanto o mato e os bichos conheceram o mato e os bichos.

E porque existe uma maneira de amar sem matar.

E porque existem muitas maneiras de amar sem matar.

Como fazem os fotógrafos a quem dedico estas mal traçadas caprichadas linhas.

Estas cem traçadas minhas, já que dez traçadas tinhas.

Te espero no chão macio da Floresta.

Com amor.

Com carinho.

Com floresta e passarinho.

Antonio Carlos Jobim

(Apresentação do livro “Toda minha obra é inspirada na Mata Atlântica”, Ana & Tom Jobim)

 

foto: Cristiana Aspesi

Cerrado – Quem ama cuida

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Espécie típica do Cerrado em área convertida em Pasto – Região do Entorno/DF

O Cerrado percentualmente é mais desmatado do que a Amazônia, mas mobilização comunitária é chave para a solução

O Cerrado é considerado a savana com maior número de espécies vegetais e animais do planeta. No entanto, a crescente ocupação humana vem diminuindo sua área ano após ano. Cerca de 46% da área original já foi destruída, segundo dados do Projeto TerraClass 2013, organizado pelo Ministério do Meio Ambiente.

Apesar de já ter perdido mais área proporcionalmente do que a Amazônia, o Cerrado sempre foi preterido em relação a ela. Enquanto a Amazônia goza de um sistema de monitoramento constante por satélite desde 1998, o desmatamento do Cerrado só é analisado ocasionalmente, como aconteceu no ano passado com a publicação do TerraClass – mesmo assim com dados de 2013.

Mas que foram suficientes para mostrar o tamanho do problema. Esse estudo serviu também para deixar claro as principais causas da destruição. Todas eles de difícil solução, mas possíveis de serem derrotadas. A primeira delas, não necessariamente a mais grave, é o uso de galhos e troncos das árvores do Cerrado para produção de carvão vegetal e lenha.

Para quem não sabe, o carvão vegetal é muito utilizado na indústria siderúrgica, principalmente para produzir imóveis e automóveis, objeto de desejo de todos e cada um de nós.

Já a produção de lenha serve para abastecer cadeias produtivas de pequeno e médio porte, como a indústria têxtil, por exemplo. E, por incrível que pareça, fogões e lareiras de milhares de residências de alta e baixa renda de todo o Brasil. (Classes sociais distintas na renda, mas que caminham de mãos dadas na destruição do nosso patrimônio florestal.)

A pecuária é outra atividade de altíssimo impacto no Cerrado. A opção nacional pela criação de gado extensiva, exige, ano após ano, mais e mais substituição de áreas nativas para pasto. Seja em terras públicas ou privadas.

Junta-se a isso a baixa fiscalização dos órgãos federais e estaduais, que carecem de pessoal e equipamento para agir contra os crimes ambientais.

DF – Na Capital do Brasil a situação não é nada boa. Dados desse mesmo estudo mostram que 48% da extensão territorial do DF é ocupada pela agropecuária e 10% por manchas urbanas, o que corresponde a 58% de área natural convertida.

De vegetação natural sobraram apenas 42% do total. O que eleva o DF à quinta unidade da federação com mais áreas desmatadas. Só perdemos para São Paulo, com 81%, Mato Grosso do Sul, com 67%, Goiás 57% e Paraná com 58%. Veja gráfico.

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Gráfico 1. Distribuição das frequências das classes de uso do solo e cobertura da terra no Cerrado,  por estado

Outro dado negativo é que, no DF apenas 4% de sua área foi destinada a unidades de conservação, sejam distritais ou federais. (O estudo não incluiu áreas das Unidades de Conservação classificadas como APAs, por serem muito flexíveis à conversão da vegetação nativa).

E pior, abrigamos no DF a terceira unidades de conservação federal com maior área de vegetação natural destruída. A Floresta Nacional de Brasília apresentava em 2013, 69,75% de desmatamento acumulado.

IBRAM – As unidades distritais também têm sofrido um bocado. Segundo dados do Instituto Brasília Ambiental (IBRAM) 19 tiveram a vegetação nativa de sua área integralmente convertida, seja por invasão privada, seja por consequência de descartes de entulho, ou para cultivos de exóticas.

Exemplo disso, é o parque Dom Bosco, perto da barragem do Lago Paranoá. Apesar de preservar cinco fisionomias diferentes do cerrado, entre matas de galaria, cerrado denso, entre outros, essa área vem sendo assediada desde a época da construção da capital.

Lá dentro, dá de tudo, solo exposto, devido à erosão, e até invasão para produção agrícola. Veja mapa:

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Não que ocupação seja errada, muito pelo contrário. Quanto maior o interesse das pessoas pelos parques, menos expostos eles ficarão aos crimes ambientais.

Exemplo disso, é o Parque Sucupira, que margeia o Eixo Monumental. Criado em 2005, ele conta com um grupo de pessoas engajadas na restauração da vegetação nativa e preservação dos remanescentes.

No Facebook, o parque tem uma comunidade que conta com 752 membros. Gente ativa que está sempre de olho no cuidado com o parque. E o melhor, organizam eventos que conjugam lazer e educação ambiental. A final de contas, como diz o ditado: “quem ama cuida”.

SEMA – O Decreto nº 37.115, de 16 de fevereiro de 2016, criou o programa Brasília nos Parques, cujo objetivo é justamente incentivar a população a se apropriar das áreas verdes das cidades e, de acordo com as peculiaridades de cada parque apresentar à população lista de ações a serem desenvolvidas durante o ano. As ações do programa Brasília nos Parques são coordenadas por um comitê gestor composto por 11 órgãos governamentais e colegiado é coordenado pela Secretaria do Meio Ambiente.

Outra importante iniciativa é a Virada do Cerrado, um programa colaborativo, envolvendo todo o Sistema Distrital do Meio Ambiente e que a partir de parcerias entre a população e o governo local desenvolve ações de educação socioambientais no desafio da cuidado e da preservação do cerrado.

O que é floresta?

Rosana no açaizeiro

Moradora de várzea na Ilha do Marajó (PA)

Em março deste ano, mais de 100 organizações do mundo enviaram uma carta à FAO apelando para que essa instituição da ONU mudasse sua definição enganadora de florestas (1). A FAO aplica uma definição reducionista, que tem como único critério a presença de árvores e desconsidera a floresta como terra onde vivem e do qual dependem diferentes tipos de flora e fauna, e também comunidades locais. Segundo a definição do FAO, chamam-se ‘florestas’, por exemplo, as vastas monoculturas de eucalipto de rápido crescimento, manejadas com produtos tóxicos.
 
Dois pesquisadores ligados ao Centro para Pesquisa Florestal Internacional, CIFOR, também argumentam que isso é algo inaceitável, em um artigo na revista Biotrópica, chamado “Futuros de Florestas Tropicais” (2). Eles mostram que a definição da FAO sugere que há regiões no mundo onde ‘ganhamos’ áreas de ‘florestas’ quando se introduzem monoculturas industriais de árvores em áreas onde antes não havia uma vegetação com predomínio de árvores. São, por exemplo, áreas de cerrado ou pastagens naturais, ecologicamente tão excepcionais e ricas quanto as florestas. A conclusão é clara: é preciso mudar a atual definição de florestas para algo bem mais de acordo com a realidade.
 
Mas como fazer isso? Os pesquisadores citados defendem outra referência para falar de floresta. Em inglês, chamam de ‘old growth forest’, algo como ‘uma floresta que teve bastante tempo para crescer’. Seria uma área onde as árvores naturalmente regeneradas têm mais idade do que o tempo dos ciclos de corte usados na lógica da produção de um volume sempre maior de madeira, e com muito mais diversidade do que em florestas manejadas para extração de madeira. A nova referência resultaria, segundo os autores, em florestas capazes de resistir melhor a choques ambientais e outros fatores de estresse, algo bastante pertinente em tempos de mudanças climáticas.
 
É bem verdade que o ciclo de corte aplicado às monoculturas de árvores é curto. Mesmo que empresas de eucalipto façam campanhas com lemas como “Nosso futuro tem raízes”, como a Aracruz Celulose (a atual Fibria) fez no Brasil anos atrás, ninguém se engana: o ciclo de corte na monocultura de eucalipto, por exemplo, pode ser, hoje em dia, de incríveis 2 anos – para plantações com fins de energia – ou de 5 a 7 anos – para fins de celulose. O tempo do corte seletivo de árvores centenárias para obter madeira em áreas do chamado ‘manejo florestal sustentável’ gira em torno de apenas 15 a 30 anos, levando também à destruição da floresta, apenas de uma forma mais lenta (veja Boletim 197 do WRM).
 
Os pesquisadores do CIFOR também lembram que, até agora, quem discute e define o futuro de áreas de floresta tropical no mundo muitas vezes vem de fora. O modelo de plantação de monoculturas de árvores para obter madeira surgiu na Europa e levou, inicialmente, à criação do curso universitário de engenharia florestal. Um olhar mais local evitaria a tentativa, por parte de empresas e consultores de fora, de generalizar argumentos frágeis, até mesmo mentirosos. Por exemplo, o argumento de que introduzir a ‘floresta’ de monocultura industrial de árvores reduziria a pressão sobre as florestas (nativas). Os pesquisadores mostram que essa afirmação só se revelou certeira no caso de Nova Zelândia, mas se mostrou falsa em relação a outros países com outros contextos. Há muitos anos, organizações que apoiam as lutas contra as monoculturas industriais de árvores, incluindo o WRM, já estão dizendo isso.
 
Para as florestas terem futuro, os pesquisadores defendem que é preciso enxergar as funções essenciais que elas cumprem e reconhecer seus múltiplos benefícios. Significa que não só é necessário ampliar o olhar do engenheiro florestal – geralmente voltado apenas a maximizar a produção de madeira – mas também envolver outros olhares, considerando as múltiplas dimensões das florestas – sociais, culturais, inclusive religiosas, e ecológicas. Os pesquisadores defendem, inclusive, que as florestas precisam ser pensadas e manejadas também por aqueles que de fato vivem na região, inclusive pelas comunidades locais que delas dependem. Mas, conforme o WRM e outras organizações têm mostrado, um importante entrave a isso tem sido as relações de poder muito desiguais, injustas, levando à violência. Um pequeno grupo de interesses privados, politicamente influentes, sempre busca enfraquecer comunidades locais nas suas lutas árduas para evitar a destruição da floresta.
 
Este boletim busca contribuir não só para mostrar o valor das florestas, a devastação e as lutas de resistência, mas também para lembrar a diversidade de florestas que existe. Qualquer uma dessas florestas tem se mostrado capaz de criar raízes suficientes para resultar em um ambiente benéfico onde comunidades também possam criar suas raízes.
 
Talvez isso exemplifique bem a mensagem dos pesquisadores da CIFOR, mas, dito de outra forma, uma floresta, para ser floresta, precisa criar raízes. É isso que faz com que comunidades locais também possam criar suas raízes no local e estabelecer uma relação de convivência com a floresta. Onde há monoculturas ou outros tipos de manejo intensivo, com ciclos de rotação curtos e destrutivos, é óbvio que não há como criar raízes, nem mesmo com propagandas artificiais de efeito como já tentou fazer a Aracruz Celulose.
 
O problema é que aquelas poucas pessoas que definem o futuro das florestas hoje não enxergam bem isso, e são, de certa forma, cegas quando só têm olhos para a produtividade da madeira acima do solo e para o lucro que pode ser obtido com ela em mercados externos. Mas, há muito tempo, as milhões de pessoas que dependem das florestas já sabem da importância que elas têm na sua vida e, por isso, travam suas lutas diárias para defendê-las.
 
(1) Carta aberta à FAO, WRM,http://wrm.org.uy/es/todas-las-campanas/carta-abierta-a-la-fao-
en-ocasion-del-dia-internacional-de-los-bosques-21-de-marzo-de-2014/

(2) Putz, Francis and Claudia Romero. “Futures of Tropical Forests”, Biotrópica 46 (4): 495-505, 2014. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/btp.12124/abstract
 
Fonte: World Rainforest Movement

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Um aula de como não olhar a Amazônia

A visão colonizada por trás de uma inocente história infantil

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Caiu na minha mão um livro do notório Educador Ambiental, Samuel Murgel Branco. Como era sobre a Amazônia, me acomodei para apreciá-lo. No entanto, a media que avançava na leitura, encontrava absurdo em cima de absurdo. Não consegui tirar os olhos até a última página.

O livro trata da geografia da Amazônia, narrada por meio de uma fictícia viagem ao rio Trombetas, no noroeste do Pará, feita por uma harmoniosa família paulistana.

Sei que o professor Samuel é uma referência em Educação Ambiental. Mas não pude deixar de escrever essa critica, já que a visão dele, apesar de o livro ter sido publicado em 1995, segue sendo atualíssima.

E também porque a obra está disponível numa biblioteca infantil que frequento, à mão de qualquer criança curiosa. Na verdade, o livro é uma aula de como não se deve olhar a Amazônia.

Desde a chegada dos personagens a Belém, tudo é apresentado como pitoresco, exótico. O que reforça a visão de terra distante primitiva passível de ser colonizada.

Cheio de compaixão, o autor culpa o consumo local como principal fator da degradação ambiental, que vai percebendo pelo caminho. Pesca excessiva, lixo, etc.

Tá aí o primeiro equívoco da obra. Lixo há, mas pior que o lixo é a visão segundo a qual a Amazônia é um almoxarifado de riquezas naturais livres para serem transferidas aos mercados externos.

Os setes estados da Região Norte precisam de uma política que garanta desenvolvimento local e não crescimento econômico alhures.

Belo Monte é um bom exemplo. A região afetada pelas obras está sendo sacrificada em nome de um suposto e irremediável bem maior da nação. Mas os impactos locais permanecerão. Foi assim com a hidrelétrica de Tucuruí; assim acontece na construção das rodovias da soja.

Seguindo a leitura, acompanhamos o desembarque da família na floresta – mais desinformação vai aparecendo. O narrador admira-se com a paisagem e elabora um suposto paradoxo da ecologia amazônica: apesar da biodiversidade, a floresta expande-se sobre um solo irremediavelmente pobre.

Esse erro persiste em materiais didáticos. É mais fácil acusar a floresta de paradoxal do que estudar suas complexidades.

A pergunta formulada pelo personagem denuncia o olhar forasteiro, sempre desinteressado da floresta, mas de olho na sucção das riquezas naturais.

Não deve ter sido esse o motivo da visita do professor Samuel ao Trombetas. Mas revelou sua visão colonizada que ainda hoje seus conterrâneos mantêm. Se sensíveis educadores ambientais como ele são reféns desse preconceito, imagina o resto.

Alguém interessado em manter a floresta em pé formularia a questão de forma diferente.

Tentaria compreender a relação sistêmica entre floresta, água e solo. E aí ficaria fácil de entender a fertilidade biológica que tanto impressionou o professor Samuel.

Mineração – Seguindo a leitura, a próxima parada da família bandeirante é no município de Oriximiná, às margens do rio Trombetas, para visitar uma mina de bauxita – matéria-prima do alumínio.

A partir daí, o livro se torna fundamentalmente obscuro. Revoltante até. Principalmente para quem conhece a Amazônia e aposta na Educação como estratégia de desenvolvimento.

Uma apresentação acrítica da mineração é imiscuída na narrativa, defendendo o tal do desenvolvimento e silenciando sobre os impactos ambientais e sociais que a atividade provoca.

Os processos industriais do alumínio são enaltecidos. O autor até comenta sobre a lama vermelha que o beneficiamento da bauxita provoca, mas resume o descarte com um simples “daí se joga fora”.

Joga fora para onde, Samuel?

Eu sei para onde! Para os igarapés que garantem a sobrevivência das populações tradicionais.

Participei de audiências públicas na região. Ouvi dos ribeirinhos, que na época da instalação dessas minas, as autoridades disseram que não haveria impacto, que a indústria era moderna e só traria benefício.

Mas o peixe sumiu e a água mudou de cor”, me contaram os ribeirinhos.

Aliás, a história da região é uma joia. O professor Samuel perdeu a oportunidade de escrever um livro lindíssimo.

Quilombolas – Pouco se fala, mas a Calha Norte do Pará tem uma história heroica de luta e resistência das populações negras.

Foram vários os quilombos da região formados por escravos levados ao coração da Amazônia para trabalhar na cultura cacaueira, durante o século XIX.

Negros que subiram o rio e eram abrigados pela floresta. Até hoje eles estão lá.

Ao contrário do que se entende sobre quilombos, eles nunca se isolaram – como mostra uma pesquisa das professoras Rosa Acevedo e Edna Castro, publicada no livro “Negros do Trombetas: Guardiões de Matas e Rios”

livro trombetas

Estudo detalha história dos quilombos do Trombetas

Os negros da região eram foragidos, sim, no entanto nunca cortaram os laços com as cidades. As professoras descrevem o comércio que mantinham com Belém e Santarém. Falam de como esses negros foram recrutados para a guerra do Paraguai. E o melhor: contam a descoberta de um livro, onde consta o registro de batismos clandestinos de quilombolas, realizados por padres abnegados da região.

População negra que a floresta abrigou, mas que agora volta a perder direitos com o interesse minerador.

Se o professor tivesse se debruçado sobre estudos a respeito do lugar que visitou iria se surpreendente, por um, aí sim, paradoxo regional.

Antes de iniciar a mineração, o governo federal criou unidades de conservação não para proteger o meio ambiente ou as populações tradicionais, mas para garantir a segurança da mineração. Para quem não sabe, trata-se de prática comum na Amazônia, como revela a “Mineração em Unidades de Conservação”, publicado pelo Instituto Socioambiental.

No Alto Trombetas, os quilombolas foram expulsos das áreas onde moravam para dar lugar ao mosaico de unidades de conservação, criado para proteger a atividade mineradora.

Quem se recusou foi tratado à bala pela polícia. Mais uma vez, os quilombolas tiveram que fugir floresta adentro. Novamente, ela lhes acolheu.

Apesar dos impactos, a região continua linda. Uma das mais incríveis de toda a Amazônia. O mosaico de unidades compreende a Flona Saracá-Taquera, a Rebio Trombetas, que, por sua vez, integram um outro mosaico estadual.

No final, o professor Samuel ainda empurra o velho argumento segundo o qual “o meio ambiente não deve impedir o desenvolvimento do país, nem o aproveitamento racional de seus recursos”. Para ele, é só uma questão de soluções inteligentes.

Outro falso paradoxo – muito útil para encobrir interesses não confessados.

Como Educador Ambiental, o professor Samuel (que hoje dá nome a um ativo instituto voltado para a agenda ambiental em São Paulo) deveria saber que inteligência passa longe de tentar viabilizar soluções mineradoras que levam recursos para fora da região. Como diz o jornalista Lúcio Flávio Pinto, “o que falta é consciência para adotar um modelo voltado para dentro”.

Inglês de Souza sem querer escreveu um belo relato sobre a escravidão na região

Para mais informações sobre a obra do prof Samuel: http://ismb.org.br/site/index.php/2012/07/22/uma-aventura-amazonica/

E aqui o livro “Negro do Trombeta” para baixar: Negros do Trombetas: guardiães de matas e rios.

E a publicação do ISA: Mineração em UCs na Amazônia Brasileira

…e assim Claudio Angelo encerrou o V CBJA

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Claudio Angelo – V Congresso de Jornalismo Ambiental

“Foi o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da incredulidade, foi a estação da Luz, que foi a estação das Trevas, era a primavera da esperança, foi o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós, estavam todos indo direto para o Céu, todos íamos a caminho directo – em suma, o período foi tão longe como o período atual, que alguns de seus mais ruidosos autoridades insistiram em seu ser recebido, para o bem ou para o mal, no grau superlativo de comparação apenas.”*

* primeiro parágrafo de “Um Conto de Duas Cidades” – Charles Dickens

A dialética entre Inhotim e a paisagem natural

instalação Beam Drop, de Chris Burdan

Uma das instalações mais interessantes é essa de Chris Burdan, com barras de minério de ferro fincadas no topo de uma colina do parque.

A gente chega lá em cima, olha ao redor e vê as montanhas da região carcomidas por imensas escavações das mineradoras, além do desmatamento para a pecuária extensiva. Ironicamente, causadas pela atividade dos donos do parque, cujas empresas já receberam milhões de multa por desmatamento da Mata Atlântica mineira.

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Inhotim se localiza num município pobre, que sempre viveu da mineração e da pecuária. Visualmente, a cidade é de dar dó, apesar da candura do nome: Brumadinho.

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Ainda hoje, embora esteja na região metropolitana de Belo Horizonte, não tem nem asfalto para ligar seus distritos.

Mas as barras de ferro de Burdan lembram bem (pra quem quiser ver) quem são os responsáveis por aquela paisagem.

Abaixo vídeo que documenta o processo de criação da escultura em Inhotim. Dirigido por Pablo Lobato, o vídeo foi produzido pela Teia.