Um Xingu de gente contemporânea

Carona, na aldeia Piyulewene

Para Fernando Bittencourt

Quando desembarquei em Canarana, cidade vizinha do Parque Indígena do Xingu, tinha um artigo pronto na cabeça.

Queria tratar da sofisticação das relações políticas dos índios reunidos naquela reserva. Levava leituras prévias de textos como a “Sociedade Contra o Estado” e alguns do filósofo francês Michel de Certeau.

Entretanto, quando começou meu contato, meu artigo esfarelou. Tudo que era certeza virou dúvida. Esses textos teóricos se revelaram pueris e esquemáticos.

A realidade daquelas pessoas não é fácil de interpretar. Suas relações são como cipó entre as árvores.

O que via não entendia. Recorri a intérpretes que, quanto mais me explicavam, menos entendia. Quando sentava pra reescrever, me sentia num labirinto de percepções.

Só dentro das aldeias, convivendo com os índios, as ideias começaram a se desvelar.

Segundo Katia Onu, do Instituto Socioambiental, a discussão não é tecnologia ou não tecnologia. E sim como ela pode ajudar no desenvolvimento da cultura deles.

Exemplo disso percebi no diretor regional da ATIX, Bebeto Napikï. Sua gestão é refém da tecnologia. A final de contas, tem de tocar uma pauta enorme no Médio Xingu. Trabalho exaustivo que exige negociação entre as etinias e principalmente na relação com o branco.

Com uma voadeira como motor 40hps, agora Bebeto ganhou autonomia. Não corre mais risco de, quando chegar pra negociar com a contraparte, o acordo já ter caducado.

Mesma coisa com o jovem pai de família Kamati Ikpeng. Ele está sempre com a filmadora. Documenta tudo. Durante minha estadia no polo Pavuru, no médio Xingu, Kamati filmava o tempo todo. Assisti a um material dele sobre um ritual de passagem juvenil, quando os jovens da tribo são tatuados. O cara sabe construir uma narrativa a partir da edição.

Havia várias tomadas do alto que ele fazia pendurado nas cumeeiras. Kamati me explicava como, manejando um drone, vai poder fazer ainda melhor.

Katia me explicou que essa desenvoltura não é incomum entre esses jovens. Na verdade, é curioso como eles parecem se dar melhor com a tecnologia da imagem do que com a da escrita.

Na escola municipal na aldeia Piyulewene dos Wuará, o professor Daikir reune seus alunos depois do almoço. Como a prefeitura de Gaúcha do Norte ainda não construiu a escola de alvenaria na aldeia, eles organizaram salas multisseriadas abrigadas por uma árvore de pequi. 

Três grandes galhos e duas paredes de madeira fazem as vezes das divisórias. A aula dos mais novos hoje vai abordar a grafía da língua materna, do tronco Aruak.

Enquanto explica o exercício, o professor não cobra atenção das crianças, que permanecem em silêncio, mas se levantam quando bem entendem.

Dificil é quando têm de ir lá na frente ler em voz alta as frases no quadro branco. Quando alguém não consegue ler, como eu, os alunos caem na gargalhada. Me lembrei de quando sofria a mesma situação na idade deles.

Daikir está obeso. Depois que virou educador “civilizado”, guerreiro da preservação da sua língua materna, trocou seus hábitos alimentares. Seu exame de diabetes chocou toda a aldeia.

Agora ele vai ter de escutar a sogra. Cozinheira de mão cheia que se ocupa de uma espécie de cozinha coletiva, preparando biju, tratando o peixe fresco que o neto trouxe de moto lá da lagoa.

Obesidade não parece problema para os jovens das aldeias que visitei. Galera malhada, orgulhosa de seus corpos. 

Às 16hs, na aldeia Moygu, eles se reúnem para jogar futebol. Primeiro o feminino; depois o masculino. Nessa hora, esses jovens pouco diferenciam de seus contemporâneos ocidentais. O uniforme completo, juiz e rede branca atada nas balisas. As meninas vêm de rabo de cavalo. Lindas!

Os meninos jogam duro. Não consegui distinguir ninguém com toque de bola diferenciado.

A poeira sobe.

Depois do jogo, debatendo com Kamati, percebi que ele tinha lido a partida melhor do que eu. Ele sabia do que estava falando.

Futebol é linguagem. Nenhum outro assunto rendeu mais naqueles dias, do que falar sobre craques, times, copa do mundo.

A bola rola em Moygu — futebol é linguagem

Queria ver também o jogo dos Wuará, mas a aldeia estava de luto. Um velho ancião da tribo está na UTI em Brasilia. Segundo os parentes, só as máquinas não entenderam que a alma do velho já partiu.

O fato é que depois que você convive com essa gente, conhece suas histórias, ouve seus mitos, vê as crianças brincando, doi no peito na hora de ir embora.

E eles parecem sentir o mesmo. Foi assim com os Ikpeng; repetiu depois com os Waurá.

Eles me perguntavam quando eu voltaria. E eu sempre inventava uma data pro peito parar de arder.

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