Tom Jobim: O Brasil é pura floresta

 

foto; João Bittar

Tom no jardim da casa dele no Rio

O Brasil é pura floresta.

Até o nome Brasil vem da floresta.

Outrora pensou-se em dar ao Brasil o nome de Ipê. Outra árvore ameaçada e linda! O ipê-roxo, o rosa e o amarelo! Amarelo Deus! Pau-d’arco, madeira de lei.

No dia da árvore fomos plantar uma no Parque Lage. Enquanto isso acontecia quimavam-se milhares de árvores no Brasil. Não só no dia da árvore, como todo o dia.

Mas que quer o Homem?

Queimar a floresta, matar os índios e os bichos, engaiolar os pássaros e escravizar a mulher.

Sempre falando em progresso e criando o deserto. Inventando a miséria na terra da opulência.

Brazil. Brasil, cadê o pau Brasil?

Zona da Mata! Cadê a mata?

Itabira do Mato Dentro, cadê o mato?

Boca do Mato? Cadê o mato?

Lá embaixo, vistas do avião, as voçorocas descomunais, as entranhas da terra à mostra, a terra cremada, erodida, levada pelas águas, as serras despencando, as pedras morro abaixo, o fogo morro acima indo buscar a última árvore, nas grimpas.

As cinzas negras flutuando no ar, na maria-preta, o estouro dos taquaruçus, a língua de fogo atravessando o rio e o fogo pulando para a outra margem.

Ar poluído, águas poluídas, (o outro lado).

Destruição do paraíso. Fim da vida vegetal e animal.

No Estado do Rio de Janeiro, na última estiagem de mais de quarto meses, vi, com estes olhos, mais de cem fogos! À noite o céu ficava vermelho, de dia, cinza. O ar, irrespirável, as lágrimas rolando, o claro no inverno, insuportável.

Total devastação! Holocausto! Crime hediondo!

O sítio de minha mãe parece a cratera de um vulcão. Alguns cínicos falam em combustão espontânea. Ora, o Brasil é um país chuvoso e hereditário. O Estado do Rio de Janeiro é um dos lugares onde mais chove no mundo. Parece que todos têm uma caixa de fósforo no bolso. Qualquer estiagem eles tentam, a ver se pega.

Perguntei a um, por que botar fogo?

Resposta: é bom, pra plantar feijão.

Perguntei a outro: pra que o fogo?

O fogo faz fumaça que sobe e forma as nuvens que se condensam em chuva, que é boa pra plantação!

Aquel’outro me disse que o C02 é bom para as plantas.

Nesse duro escritório, tudo vem da floresta.

As longas tabuas do chão.

A madeira do piano, o pau-rosa do violão, a lenha no fogo, o lápis com o qual eu escrevo essas linhas, a mesa, a cadeira que estou sentado, a porta, a janela.

Meu Deus, é tudo floresta!

Móvel, esta escrivaninha de onde vos escrevo estas maltraçadas…

É claro que para Deus nada disso tem importância, a Terra não fará falta nenhuma. Deus tem milhares de planetas com onça, anta, macuco, mutum, com jacarandá, jequitibá, ipê, maçarandubas fabulosas, nunca vistas aqui na Terra, com animais que se unem e plantas que florescem na desconhecida primavera de um planeta selvagem.

A FLORESTA ENCANTADA

Mas de repente falta água no Rio de Janeiro e D. Pedro II pede ao Major Gomes Archer que plante a floresta, ou seja, que replante a Floresta da Tijuca. Naquele tempo a água principal vinha do rio Carioca, que nasce nas faldas do Corcovado, descendo pelo Cosmo Velho, Santa Thereza e atravessando a Lapa pelo aqueduto, sobre os arcos, que levava água para o centro do Rio. Mas essa água não era suficiente. Dom Pedro II sabia que com o desmatamento da Serra da Carioca e do Maciço da Tijuca, os mananciais secariam. A devastação era muito grande.

Restaram poucos trechos da mata virgem original. Eles não pensaram em fazer um parque com árvores ou um santuário com animais silvestres.

Assim foi que em 1862, pensando na água, o Major Archer, ajudado por seis escravos, iniciou o plantio da Floresta da Tijuca!

Incrível Floresta! Além de espécies nativas, vindas de Guaratiba e das Paineiras, plantou também espécies exóticas, como mangueiras do sudeste asiático, jaca índica, eucaliptos australianos, jambo da Ásia, bambus, pinheiros e outras.

E o incrível é que essa Rain Forest, essa Cloud Forest não pega fogo!

Quantas e quantas vezes, andando pela floresta, vi velas acesas no oco do pau. Quantas vezes vi balões enormes caírem acesos na floresta. Estes balões navegam à noite, de Norte para Sul, tangidos por um fraco terral. No mais das vezes eles caem no mar, cruzando o litoral leste-oeste do Rio de Janeiro.

Assim como o homem devasta, corta, queima tudo para fazer lenha, carvão, e planta café e cana, de repente, por falta d’água, ele planta uma floresta! E que floresta!

Não é uma floresta interesseira, de uma só espécie, sem pássaros, sem bichos, não é uma floresta de pinheiros nem de eucaliptos, é uma floresta com milhares de espécies vegetais e animais. Conspurcada, invadida em mil lugares, sim, como motocicletas correndo pelas picadas, roubada de suas orquídeas, de suas borboletas, de suas avencas, de seu silêncio, de suas madeiras de lei, de seus palmitos, com caçadores penetrando e matando tudo que encontram, em qualquer época do ano. Outros pegam borboletas, os armadilheiros pegam tatus, lagartos, micos, macacos, esquilos, preguiças e muitos pássaros. E cerca a água, o bicho com sede se aproxima e cai na esparrela, na cilada, no mundéu, na ratoeira, no laço, na urupuca, o Homem é mestre em transformar o paraíso em inferno, incríveis maquinações!

A inteligência nos traiu, justamente quando esperávamos aplicá-la sobre as espécies menos favorecidas. E agora vamos aos peixes… no anzol, na rede, no veneno, na dinamite, no covão…

Meu bravo Major Acher: você sabia de tudo, você plantou mais de sessenta mil árvores. Deus está orgulhoso de você e eu estou feliz por você e não só por causa da água! Mas também.

Num agosto-setembro, quando a jacutinga busca nas grimpas o coco da juçara e o fruto do murici, caminhávamos o Elzo, eu e o Therezinho pela trilha batida da porcada, ao longo do paredão. Na fresca da manhã, nossas sombras davam para a esquerda. Sabíamos que seguindo o rastro da porcada encontraríamos a passagem que levava ao outro lado da montanha. Mas isso já é outra história…

Ofereço estas mal traçadas rinhas, estas mal traçadas vinhas aos ex-caçadores que tiveram compaixão de suas vítimas.

E por amar tanto o mato e os bichos conheceram o mato e os bichos.

E porque existe uma maneira de amar sem matar.

E porque existem muitas maneiras de amar sem matar.

Como fazem os fotógrafos a quem dedico estas mal traçadas caprichadas linhas.

Estas cem traçadas minhas, já que dez traçadas tinhas.

Te espero no chão macio da Floresta.

Com amor.

Com carinho.

Com floresta e passarinho.

Antonio Carlos Jobim

(Apresentação do livro “Toda minha obra é inspirada na Mata Atlântica”, Ana & Tom Jobim)

 

foto: Cristiana Aspesi

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