As múltiplas possibilidades do pouco

foto da capa da enciclica

Capa da 1º edição brasileira – 2015

Me chamou a atenção nessa encíclica do Papa Francisco a defesa do “pouco”. Não o pouco ligado à miséria, mas o pouco em oposição ao excesso, ao desperdício.

“Quanto menos, tanto melhor”, escreve.

Quando li, estranhei. Principalmente pelo fato de a igreja católica testemunhar tanta miséria mundo afora. Mas a argumentação que vai tecendo não deixava dúvida: a ética do pouco traria uma vida mais equilibrada.

A medida que avançava na leitura, a argumentação ia fazendo sentido. Pensando bem, nada mais contemporâneo do que pensar assim – sobretudo numa época de supérfluos, em que, todo ano, esgotam-se em setembro os recursos naturais que deveriam durar até dezembro.

E ele insiste: “É possível necessitar de pouco e viver muito, sobretudo, quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, na fruição dos próprios carismas, na música e na arte”.

Música! Isso mesmo. Suas palavras soavam como música para os ouvidos de um epicurista empedernido como eu.

Com esses argumentos, que conjugam prazeres com temperança, a encíclica poderia até ser confundida como algum fragmento redescoberto atribuído a Epicuro – filósofo que viveu na Grécia Antiga e que, a bem da verdade, não acreditava na existência dos deuses de então, nem muito menos em um único Deus, como creem os cristãos.

Parece até contradição. Mas na elegante argumentação de Francisco, a distância entre o cristianismo e o epicurismo se transforma em convergência. Em opostos que deixam de ser excludentes para se tornarem complementares.

Aliás, a opção pelo diálogo é o que costura toda a delicada narrativa dessa encíclica.

Exemplo disso é a insuspeitada união entre ciência e fé que, na visão de Francisco, é por onde passa o caminho da solução para a crise ecológica. “Nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser preteria, nem sequer a sabedoria religiosa com sua linguagem própria”, explica.

Tampouco Francisco vê contradição entre o pensamento ancestral e as inovações tecnológicas. Ele agradece aos progressos da medicina, da engenharia e da comunicação. ”É justo que nos alegremos com estes processos e nos entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes”.

Legal ele pensar assim.

Mas no Capítulo III – 1. A Tecnologia: Criatividade e Poder não deixa de criticar a lógica da tecnologia, que torna “anticultural a escolha de um estilo de vida, cujos objetivos possam ser, pelo menos em parte, independentes da técnica, dos seus custos e do seu poder globalizante e massificador”.

Esse argumento me lembrou um texto de Marcuse de 1968 (1) que li recentemente. Criticando a noção weberiana de racionalidade, Marcuse alertava para o risco de a técnica, desvinculada dos interesses sociais, passar a determinar padrões de controle. Francisco vai na mesma direção. Segundo ele, é difícil hoje em dia “utilizar os recursos (tecnológicos) sem ser dominado pela sua lógica”. Acho que eu e Papa lemos o mesmo texto…

E não é só Marcuse. Embora não mencione autores diretamente, o texto vai revelando página após página os diversos campos do conhecimento que Francisco integrou para garantir sustentação teórica à sua encíclica.

Thomas Malthus, por exemplo, aparece para logo em seguida ser sumariamente desacreditado. Hegel é base de várias linhas argumentativas. E a psicanálise serve como diagnóstico para a violência e o egoísmo contemporâneos, mas é descartada como solução libertária.

Argumentos marxistas são explorados com desenvoltura: Não à privatização dos recursos naturais; dívidas externas como forma de dominação colonial; etc.

Não foi à toa que Jeb Bush, do partido republicano, deu um faniquito assim que a encíclica saiu. Puro teatro. Se ele de fato leu as palavras do Papa, notou que em nenhum momento o capitalismo ou a iniciativa privada são descartados. Pelo contrário. Segundo a encíclica, todos são parte da solução.

Mas, apesar de conciliador, Francisco não deixa de chamar a atenção para excesso de todos os lados. Religiões que não se entendem. Políticos e economistas que se acusam mutuamente. E ecologistas que mais divergem do que convergem.

Ops! Aqui, vesti a carapuça. Quem me conhece sabe que, com os colegas preservacionistas, só me junto na cadeia.

Seguem alguns trechos da encíclica que têm a ver com esse blog:

Reserva Legal

Francisco pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para aí crescerem as ervas silvestres, a fim de que, quem as admirasse, pudesse elevar o seu pensamento a Deus, autor de tanta beleza (pg 16).

Desenvolvimentismo x sustentabilidade

As estradas, os novos cultivos, as reservas, as barragens e outras construções vão tomando posse dos habitats e, por vezes, fragmentam-nos de tal maneira que as populações de animais já não podem migrar nem mover-se livremente, pelo que algumas espécies correm o risco de extinção (pg 28).

Se reconhecer o valor e a fragilidade da natureza e, ao mesmo tempo, as capacidades que o Criador nos deu, isto permite-nos acabar hoje com o mito moderno do progresso material ilimitado (pg 52).

Serviços ecossistêmicos

Seus meios (dos pobres) de subsistência dependem fortemente das reservas e dos chamados serviços do ecossistema, como a agricultura, a pesca e os recursos florestais.

Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem se adaptar: e isto, por sua vez, afeta os recursos produtivos dos mais pobres.

Adaptação baseada em ecossistemas (AbE)

Temos que recordar que os ecossistemas intervêm no sequestro de carbono, na purificação da água, no controle de doenças e infecções, na composição do solo, na decomposição de resíduos e muitíssimo outros serviços que esquecemos ou não conhecemos ainda.

Desmatamento

Quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em desertos áridos (pg 29).

Internacionalização da Amazônia

Há propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais (pg 29).*

Não sei no original com está, mas na edição brasileira o tradutor não separou a oração subordinada por vírgula. Isso quer dizer que se trata de uma adversativa, o que muda tudo no argumento papalino.

Áreas protegidas

Há lugares que requerem um cuidado particular pela sua enorme importância para o ecossistema mundial, ou que constituem significativas reservas de água, assegurando, assim, outras formas de vida (pg 29).

Florestas plantadas

Habitualmente, também não se faz objeto de adequada análise a substituição da flora silvestre por áreas florestais com árvores, que geralmente são monoculturas (pg 30).

Privatização

Cresce a tendência para se privatizar este recurso escasso, tronando-se uma mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito essencial (pg 25).

Ciências ambientais

É preciso investir muito mais na pesquisa para se entender melhor o comportamento dos ecossistemas e analisar adequadamente as diferentes variáveis de impacto de qualquer modificação importante do meio ambiente (pg 31).

Antropoceno

Numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases de efeito estufa emitidos sobretudo por causa da atividade humana (pag 22).

Gentrificação

Em alguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza: noutros criaram-se áreas residenciais “ecológicas” postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem e perturbem uma tranquilidade artificial (pg 32).

MDL

As regiões e os países mais pobres têm menos possibilidade de adotar novos modelos de redução do impacto ambiental (pg 37).

COPs

A submissão da política à tecnologia e à economia demonstra-se na falência das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente (pg 38).

Greenwashing

Este comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e consumo. É uma forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os vícios autodestrutivos: tenta não vê-los, luta para não reconhecê-los, adia as decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido (pg 40).

Preservacionismo

Outros pensam que o ser humano, com qualquer uma das suas intervenções, só pode ameaçar e comprometer o ecossistema mundial, pelo que convém reduzir a sua presença no planeta e impedir-lhe todo o tipo de intervenção.

Socioambientalismo

Não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus.

Não há ecologia sem uma adequada antropologia (pg 75).

Sustentabilidade

Lv 19,9-10 – “Quando fizerdes a colheita na vossa terra, não deveis ceifar até o último limite do campo” (pg 49).

Divinização da natureza

Também não requer uma divinização da terra, que nos privaria da nossa vocação de colaborar com ela e proteger a sua fragilidade. Esta concepções acabariam por criar novos desequilíbrio, na tentativa de fugir da realidade que nos interpela (pg 59).

Reforma agrária

Isto significa que, além do título de propriedade, o camponês deve contar com meios de formação técnica, empréstimos, seguros e acesso ao mercado (pg 62).

Cultura ecológica

Um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponha resistência ao avanço do paradigma tecnocrático (pg 71).

Programas de transferência de renda

Ajudar os pobres com dinheiro deve ser sempre um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objetivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho (pg 80).

Agricultura familiar X agronegócio

Há uma grande variedade de sistemas alimentares rurais de pequena escala que continuam a alimentar a maior parte da população mundial, utilizando uma porção reduzida de terreno e de água e produzindo menos resíduos, quer em pequenas parcelas agrícolas e hortas, quer na caça e recolha de produtos silvestres, quer na pesca artesanal.

As economias de larga escala, especialmente no setor agrícola, acabam por forçar os pequenos agricultores a vendar as suas terras ou a abandonar as suas culturas tradicionais (pg 81).

OMGs

Embora não disponhamos de provas definitivas acerca do dano que poderiam causar os cereais transgênicos aos seres humanos e apesar de, nalgumas regiões, a sua utilização ter produzido um crescimento econômico (…), na sequência da introdução dessas culturas, constata-se uma concentração de terras produtivas na mãos de poucos, devido ao “progressivo desaparecimento de pequenos produtores” (pg 84).

Economia ecológica

É necessária uma ecologia econômica capaz de induzir a considerar a realidade de forma mais ampla. Com efeito, “a proteção do meio ambiente deverá constituir parte integrante do processo de desenvolvimento e não poderá ser considerada isoladamente”. (pg 89)

Salvaguardas de Redd+

Mais diretamente, pede que se preste atenção às culturas locais, quando se analisam questões relacionadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a linguagem técnico-científica com a linguagem popular (pg 91).

Combustíveis fósseis

Sabemos que a tecnologia baseada nos combustíveis fósseis – altamente poluentes, sobretudo o carvão, mas também o petróleo e, em menor medida, o gás – deve ser, progressivamente, e sem demora, substituída (pg 102).

Crédito de carbono

As estratégias de compra-venda de “crédito de emissão” pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Esse sistema parece ser solução rápida e fácil, com aparência de um certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de foram alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e setores (pg 105).

OnGs

A sociedade, através de organismos não-governamentais e associações intermédias, deve forçar os governos a desenvolver normativas, procedimentos e controles mais rigorosos (pg 109).

Estudos de Impactos Ambientais

Um estudo de impacto ambiental não deveria ser posterior à elaboração de um projeto produtivo ou de qualquer política, plano ou programa. Há de inserir-se desde o princípio e elaborar-se de forma interdisciplinar, transparente e independente de qualquer pressão econômica ou política (pg 110).

Transparência nos processos decisórios

É preciso haver sinceridade e verdade nas discussões científicas e políticas, sem se limitar a considerar o que é permitido ou não pela legislação (pg 111).

Mineradoras

Se o Estado não cumpre seu papel na região, alguns grupos econômicos podem-se apresentar como benfeitores e apropriar-se do poder real, sentido-se autorizados a não observar certas normas até se chegar às diferentes formas de criminalidade organizadas.

Educação ambiental

Se, no começo, estava muito centrada na informação científica e na conscientização e prevenção dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma crítica dos mitos da modernidade baseados na razão instrumental (…) e tende também a recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A EA deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de reordenar os itinerários pedagógicos de uma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado apoiado na compaixão (pg 124).

REDD

A estratégia de compra-venda de « créditos  de emissão» pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e sectores (pg 132)

Bosque sagrado (Espaços sagrados)

Pela variedade das suas árvores e pelo canto suaves das aves, oferecem grande divertimento e encanto aos sentido e, na sua solidão e silêncio, dão refrigério e repouso: como estes vales, é o meu Amado para mim (pg 136).*

E isto, não porque as coisas limitadas do mundo sejam realmente divinas, mas porque o místico experimenta a ligação íntima que há entre Deus e todos os serer vivos e, desse modo, “sente que Deus é para ele todas as coisas”.

* Já escrevi sobre esse tema aqui no blog: Florestas sagradas como áreas protegidas

(1) “Industrialization and Captalism in the work of Max Weber”, de Herbert Marcuse.

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2 responses to this post.

  1. “Quanto menos, tanto melhor”. Bom tema para reflexão. Faz pensar em “desacelerar”… em “voltar às origens”…

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  2. Posted by Luiz on 11/08/2015 at 15:44

    Republicou isso em Florestas Públicas.

    Responder

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