Ai, árvores!*

charge de Bandeira e Drummond

Em sua crônica de domingo para o Correio da Manhã comentou o poeta Carlos Drummond de Andrade, com aquelas palavras irônicas que ele sempre tem para as calamidades remediáveis ou irremediáveis da vida, o brutal assassinato de Chiquinha, mais um crime de dois exemplares perfeitos da juventude transviada.

Chiquinha era uma amendoeira, assim crismada pelo poeta em homenagem ao ex-prefeito Francisco Negrão de Lima, que a mandou plantar a seu pedido. “Volta, Chiquinha, ao limbo das pequeninas árvores sacrificadas a cada instante pelos que não sabem amar coisa alguma e não merecem sombra”, arrematava o poeta em sua crônica.

Eu, que já vi seis das minhas Chiquinhas passarem ao limbo, ando em contínuo sobressalto pela sobrevivência de uma sétima, esta, como as outras, mandada plantar por Negrão de Lima a meu pedido. As duas primeiras foram plantadas no inverno de 57. Pouco tempo depois parti para a Europa e nos quatro meses que estive fora, pensei nelas com carinho. Quando voltei vi que tinham desaparecido.

As que as substituíram não tiveram melhor sorte; uma depois da outra foram decepadas para brinco de um instante. Dessa vez já não pedi substitutas; compreendi que era inútil lutar contra a selvajaria 1 dos desocupados. Mas um belo dia lá estavam não duas, estavam três mudinhas de árvores, lindas, lindas na sua inocência de vegetais felizes. Duas semanas depois uma era degolada. Das restantes uma era perfeitamente conformada, verdadeira miss; a outra, não, haste for de prumo, irregularmente esgalhada, meio feinha e rebelde. A bonita viveu bonita, cada vez mais bonita, uns quatro meses. Uma manhã amanheceu reduzida ao talozinho melancólico: tinha sido sacrificada pelos que “não merecem sobra”. A minha reação foi irônica; como a do poeta: fiquei indignado, roguei pragas, converti-me em princípios à adoção da pena de morte, pelo menos para os assassinos de árvores… Agora minha última esperança é a Chiquinha feia. Nem posso dizer que seja esperança. Alguma coisa me diz que será assassinada como as outras…

Contou-me Júlio Moura que meu conterrâneo José Raul de Morais, grande amigo das árvores, tem na sua chácara de São Clemente azulejos com versos dos nossos poetas. De Adelmar Tavares são estes, que deveriam ser ensinados aos meninos em nossas escolas primária:

Raul, que felicidade!

Plantar árvores e vê-las

Crescer rumando às estrelas,

Dando sombras, e frutos, e flor

Aos filhos dos nossos filhos,

Aos netos do nosso amor.

Quero improvisar no momento uma quadra para a chácara de Morais. Não será tão bela quanto a sextilha transcrita, que eu não sou Adelmar, mas vai como homenagem ao Morais, ao Moura, a Negrão de Lima, a Drummond e às árvores em geral:

Já reparaste na árvore antiga

Esse ar de mão que é toda carinhos?

– Árvore, nossa melhor amiga,

Fonte de sombra, mansão de ninhos!

Manuel Bandeira, em 09 de setembro de 1959

*  Crônica publicada em “Andorinha Andorinha” (José Olympio Editora)

** exemplar emprestado pelo Projeto das bibliotecas nos pontos de ônibus, iniciativa do Centro Cultural T-Bone

1 – o mesmo que selvageria.

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